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Palestra debate a doença de Chagas sob perspectiva histórica

Simone Kropf, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz (COC), fez uma apresentação sintetizada de seu trabalho mais recente, no qual faz uma análise histórica do período das pesquisas realizadas por Carlos Chagas sobre a doença que leva seu nome, descoberta por um grupo liderado por ele em 1909. Abordou também a continuidade destes estudos depois de sua morte, quando um grupo de cientistas retomou os estudos em Bambuí, no interior de Minas, em 1943, sob a liderança de um dos discípulos de Chagas, Emmanuel Dias.

Simone destacou em sua apresentação como a tripanossomíase americana - nome científico da doença - foi sendo construída no seu aspecto clínico e, ao mesmo tempo, no seu aspecto social, como uma questão de saúde pública importante para o Brasil. "A doença foi construída como um emblema da Ciência de Manguinhos, dos problemas do Brasil, das doenças sobretudo do interior do Brasil. A produção do conhecimento científico é um processo social longo, coletivo, que se realiza sob certas circunstâncias históricas", observou. "Era igualmente um emblema do papel da Ciência em resolver esses problemas e da excelência científica do Instituto Oswaldo Cruz, que produziu essa descoberta".

J. Pinto. Arquivo Iconográfico da Casa de Oswaldo Cruz, FOC(VPCC-F)2-1.
O pesquisador Carlos Chagas em Manguinhos

Simone fez uma contextualização histórica do começo do século XX, quando o clima de modernização republicana consolidou a ciência como um instrumento do progresso. No contexto médico, Simone destacou a ampla difusão da microbiologia e da medicina tropical. Três fatos receberam especial atenção: a criação do Instituto Soroterápico Federal, em 1900; a defesa da tese de doutoramento de Oswaldo Cruz sobre malária, em 1903; e a ampliação do projeto institucional de Manguinhos, um dos sonhos de Oswaldo Cruz.

A pesquisadora, que utilizou vasto material catalogado no acervo da Casa de Oswaldo Cruz, preocupou-se em correlacionar a produção de conhecimento científico e o contexto histórico e social, fazendo um amplo enquadramento da doença. O período estudado por Simone aborda duas fases do processo de pesquisas sobre a doença de Chagas.

Arquivo Iconográfico da Casa de Oswaldo Cruz, FFC(F)6-2.
Carlos Chagas e Belisário Penna (sentados, da direita para a esquerda), com a equipe que trabalhava no prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil, na região do rio das Velhas, entre Corinto e Pirapora, Minas Gerais. Foi nesta casa, situada às margens do rio Buriti Pequeno, que o chefe da comissão de engenheiros, Cornélio Homem Cantarino Mota (sentado, ao centro, de branco), mostrou os barbeiros pela primeira vez a Chagas, em 1908.

A primeira é a fase da vida de Carlos Chagas, de 1909 (data da descoberta do doença) até 1934 (quando ele morre). "Neste período, ficam claras nos registros da época as polêmicas em que ele se envolveu, as críticas que foram feitas a alguns anunciados que ele produziu sobre a doença, entre outros aspectos", destacou. No segundo momento, que vai até 1962, foi abordada a continuidade destas pesquisas feita por uma segunda geração de cientistas do IOC, num posto de pesquisas que o Instituto criou em Bambuí.

Resistências e avanços científicos

Simone destaca a ida de Carlos Chagas ao norte de Minas, em 1907, com o objetivo de combater a malária. A identificação do barbeiro e de um novo tripanossoma, em 1908, redefine os rumos de sua pesquisa. Em 1909, o cientista publica artigo científico sobre o assunto no primeiro volume do caderno Memórias do IOC e, entre 1910 e 1913, realiza o primeiro desenho clínico. Até sua morte, Chagas trava um intenso debate sobre a doença e recebe diversas contribuições e críticas, ajudando a rediscutir os estudos de seu grupo de investigação. O embate político se intensifica a partir de 1922, quando se dá maior ênfase aos distúrbios cardíacos provocados pela doença.

Arquivo Iconográfico da Casa de Oswaldo Cruz, FFC(F)1-7.
Carlos Chagas examina Rita, um dos primeiros casos agudos identificados em Lassance, no norte de Minas Gerais, no início da década de 1910.

 

Como forma de chamar atenção para o problema e convencer a comunidade científica e política, Chagas fez uma série de conferências com a presença de autoridades e chegou a produzir um vídeo, com cerca de 8 minutos de duração, datado de 1910. Filmado em Lassance (MG), o próprio cientista aparece de relance. Atualmente a produção faz parte do acervo da Casa de Oswaldo Cruz e foi exibido por Simone ao final da apresentação. "Ele fez o filme para exibi-lo na Academia Brasileira de Medicina e em outras associações médicas", Simone destacou, exibindo matérias de jornais da época que relatam o impacto que essas imagens causaram.

Arquivo Iconográfico da Casa de Oswaldo Cruz, CPqRR(PED), 17-19
Emmanuel Dias aplica inseticida
em moradia de Bambuí, Minas Gerais.

O filme mostra crianças com distúrbios mentais, com paralisia e retardamento mental. "É difícil imaginar que, ao mesmo tempo em que havia um Brasil se modernizando, havia também aquele outro Brasil completamente desconhecido pelo público das grandes cidades", observa Simone. Oswaldo Cruz entendia que era preciso conhecer esse Brasil, porque isto provocaria um atraso para o desenvolvimento da Nação. "Ele se questionava sobre qual futuro o país teria com crianças naquelas condições", afirmou.

Ao mesmo tempo em que fazia propaganda de sua causa, Carlos Chagas seguia pesquisando a doença. Na visão de Simone, a doença que Chagas acompanhou tão de perto era um exemplo perfeito do projeto que Oswaldo Cruz tinha para o Instituto: uma ciência comprometida com a saúde pública e com o progresso do Brasil.

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