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Você está aqui: Notícias » Decolonialidade e desafios para uma Pós-graduação inclusiva

Decolonialidade e desafios para uma Pós-graduação inclusiva

Atividade discutiu desigualdades educacionais, políticas públicas e caminhos para ampliar diversidade e equidade na formação científica

Na manhã da última sexta-feira (13/03), a abertura oficial do Ano Acadêmico 2026 do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) promoveu debate sobre decolonialidade e desafios políticos e institucionais para a construção de políticas inclusivas na Pós-graduação. 

Integrada ao Centro de Estudos do Instituto, a atividade contou com a participação do vice-presidente da Nacional da Educação, Heleno Araújo.  A programação marcou início das ações comemorativas do 5º ato do Jubileu Secular de Prata do IOC.

O encontro foi realizado no Pavilhão Arthur Neiva, no campus da Fiocruz em Manguinhos (RJ), com transmissão ao vivo pelo canal do IOC no YouTube. A mediação ficou a cargo do chefe do Laboratório de Bioquímica de Tripanosomatídeos do IOC, Eduardo Caio dos Santos. 

Integraram a mesa de abertura a diretora de Ensino e Extensão do Instituto, Norma Cristina Brandão; a diretora de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do IOC, Luciana Garzoni; a representante discente, Fernanda Ramos; e a coordenadora-geral adjunta de Educação da Fiocruz, Mariana Souza. 

Em suas falas, elas destacaram o compromisso institucional com a excelência na formação científica e o fortalecimento de políticas voltadas à permanência, inclusão e diversidade na Pós-graduação, além da importância da escuta da comunidade acadêmica e da atuação estudantil nos espaços de decisão. 

“Os alunos do IOC fortalecem a pesquisa no Instituto. É essencial que democratizemos cada vez mais a educação para que esse conhecimento seja produzido a partir de uma troca de saberes, e não de uma imposição”, destacou Luciana. 

“O compromisso com a inclusão e a diversidade não se encerra no acesso à Pós-graduação, mas se estende à permanência, ao respeito às diferenças e à garantia de um ambiente acadêmico livre de qualquer forma de violência”, complementou Norma


As diretoras de Ensino e Extensão do Instituto, Norma Cristina Brandão, e de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do IOC, Luciana Garzoni, marcaram presença na mesa de abertura. Foto: Ricardo Schmidt

Por uma Pós-graduação mais inclusiva 

A sessão conjunta com o Centro de Estudos discutiu a relação entre desigualdades sociais, políticas educacionais e produção científica, apontando que a ampliação da diversidade na Pós-graduação depende de transformações estruturais no sistema educacional brasileiro. 

Heleno Araújo ressaltou que esses desafios estão diretamente ligados às condições da educação básica no país. Segundo ele, a construção de um sistema científico mais inclusivo exige enfrentar desigualdades históricas que atravessam todo o percurso educacional. 

“Não podemos pensar a Pós-graduação sem pensar na creche. Não existe Pós-graduação forte e inclusiva sem uma educação básica de qualidade social”, afirmou. 

O especialista apresentou dados que evidenciam limitações estruturais da formação científica no Brasil. Em 2022, o país registrava cerca de 11 doutores e 29 mestres para cada 100 mil habitantes, número inferior ao observado em países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Além disso, há forte concentração de programas de Pós-graduação nas capitais e grandes centros. 

 


Para Heleno Araújo, não há Pós-graduação inclusiva sem enfrentar desigualdades históricas na educação brasileira. Foto: Ricardo Schmidt

Outro ponto abordado foi o papel do Plano Nacional de Educação (PNE) em discussão no Congresso Nacional. Araújo destacou que o documento prevê estratégias para ampliar a formação de mestres e doutores de forma equitativa, com foco na democratização do acesso e na promoção da diversidade nos programas de Pós-graduação. 

Entre as medidas propostas, estão o fortalecimento de políticas de mobilidade acadêmica, a ampliação do financiamento à pesquisa, o incentivo a ações afirmativas e a criação de mecanismos de monitoramento da diversidade entre estudantes e pesquisadores. 

Para o palestrante, entretanto, a efetividade dessas medidas depende de compromisso político e da continuidade de estratégias educacionais. 

“A educação precisa ser tratada como política de Estado. Não é possível que cada governo queira deixar a sua marca e desconsidere o planejamento já existente. A educação exige continuidade”, apontou. 

Na mediação do debate, o pesquisador Eduardo Caio reforçou que a discussão sobre decolonialidade envolve não apenas mudanças institucionais, mas também transformações culturais dentro da academia. Segundo ele, a colonialidade se manifesta em diferentes dimensões, incluindo a produção do conhecimento científico. 

“A descolonização foi um processo político, mas a colonialidade permanece na nossa sociedade. Ela se expressa nas relações de poder, no saber e nas desigualdades que excluem determinadas populações das tomadas de decisão”, ressaltou. 


Heleno Araújo e Eduardo Caio dos Santos durante debate sobre decolonialidade, desigualdades educacionais e desafios para a construção de uma Pós-graduação mais inclusiva. Foto: Ricardo Schmidt

A sessão contou ainda com perguntas e comentários de docentes, pesquisadores e estudantes do IOC. Entre os temas levantados estiveram o eurocentrismo na produção científica, o racismo estrutural na academia, os critérios de avaliação da Pós-graduação e a valorização de saberes produzidos por populações historicamente marginalizadas. 

Participantes destacaram que a predominância de referenciais teóricos europeus e norte-americanos e os sistemas de avaliação baseados principalmente em métricas de impacto internacional podem dificultar a valorização de pesquisas voltadas a contextos locais. 

Também foram discutidos caminhos para promover mudanças institucionais, incluindo políticas afirmativas, revisão de currículos e ampliação da representatividade nos espaços de decisão acadêmica. 

Ao final do encontro, Heleno Araújo destacou que muitos dos avanços necessários para a educação já estão previstos na legislação, mas ainda não são efetivamente implementados. 

“Se aquilo que já conquistamos na legislação fosse plenamente aplicado, teríamos uma realidade muito diferente na educação brasileira”, concluiu. 

Atividade discutiu desigualdades educacionais, políticas públicas e caminhos para ampliar diversidade e equidade na formação científica
Por: 
yuri.neri

Na manhã da última sexta-feira (13/03), a abertura oficial do Ano Acadêmico 2026 do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) promoveu debate sobre decolonialidade e desafios políticos e institucionais para a construção de políticas inclusivas na Pós-graduação. 

Integrada ao Centro de Estudos do Instituto, a atividade contou com a participação do vice-presidente da Nacional da Educação, Heleno Araújo.  A programação marcou início das ações comemorativas do 5º ato do Jubileu Secular de Prata do IOC.

O encontro foi realizado no Pavilhão Arthur Neiva, no campus da Fiocruz em Manguinhos (RJ), com transmissão ao vivo pelo canal do IOC no YouTube. A mediação ficou a cargo do chefe do Laboratório de Bioquímica de Tripanosomatídeos do IOC, Eduardo Caio dos Santos. 

Integraram a mesa de abertura a diretora de Ensino e Extensão do Instituto, Norma Cristina Brandão; a diretora de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do IOC, Luciana Garzoni; a representante discente, Fernanda Ramos; e a coordenadora-geral adjunta de Educação da Fiocruz, Mariana Souza. 

Em suas falas, elas destacaram o compromisso institucional com a excelência na formação científica e o fortalecimento de políticas voltadas à permanência, inclusão e diversidade na Pós-graduação, além da importância da escuta da comunidade acadêmica e da atuação estudantil nos espaços de decisão. 

“Os alunos do IOC fortalecem a pesquisa no Instituto. É essencial que democratizemos cada vez mais a educação para que esse conhecimento seja produzido a partir de uma troca de saberes, e não de uma imposição”, destacou Luciana. 

“O compromisso com a inclusão e a diversidade não se encerra no acesso à Pós-graduação, mas se estende à permanência, ao respeito às diferenças e à garantia de um ambiente acadêmico livre de qualquer forma de violência”, complementou Norma


As diretoras de Ensino e Extensão do Instituto, Norma Cristina Brandão, e de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do IOC, Luciana Garzoni, marcaram presença na mesa de abertura. Foto: Ricardo Schmidt

Por uma Pós-graduação mais inclusiva 

A sessão conjunta com o Centro de Estudos discutiu a relação entre desigualdades sociais, políticas educacionais e produção científica, apontando que a ampliação da diversidade na Pós-graduação depende de transformações estruturais no sistema educacional brasileiro. 

Heleno Araújo ressaltou que esses desafios estão diretamente ligados às condições da educação básica no país. Segundo ele, a construção de um sistema científico mais inclusivo exige enfrentar desigualdades históricas que atravessam todo o percurso educacional. 

“Não podemos pensar a Pós-graduação sem pensar na creche. Não existe Pós-graduação forte e inclusiva sem uma educação básica de qualidade social”, afirmou. 

O especialista apresentou dados que evidenciam limitações estruturais da formação científica no Brasil. Em 2022, o país registrava cerca de 11 doutores e 29 mestres para cada 100 mil habitantes, número inferior ao observado em países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Além disso, há forte concentração de programas de Pós-graduação nas capitais e grandes centros. 

 


Para Heleno Araújo, não há Pós-graduação inclusiva sem enfrentar desigualdades históricas na educação brasileira. Foto: Ricardo Schmidt

Outro ponto abordado foi o papel do Plano Nacional de Educação (PNE) em discussão no Congresso Nacional. Araújo destacou que o documento prevê estratégias para ampliar a formação de mestres e doutores de forma equitativa, com foco na democratização do acesso e na promoção da diversidade nos programas de Pós-graduação. 

Entre as medidas propostas, estão o fortalecimento de políticas de mobilidade acadêmica, a ampliação do financiamento à pesquisa, o incentivo a ações afirmativas e a criação de mecanismos de monitoramento da diversidade entre estudantes e pesquisadores. 

Para o palestrante, entretanto, a efetividade dessas medidas depende de compromisso político e da continuidade de estratégias educacionais. 

“A educação precisa ser tratada como política de Estado. Não é possível que cada governo queira deixar a sua marca e desconsidere o planejamento já existente. A educação exige continuidade”, apontou. 

Na mediação do debate, o pesquisador Eduardo Caio reforçou que a discussão sobre decolonialidade envolve não apenas mudanças institucionais, mas também transformações culturais dentro da academia. Segundo ele, a colonialidade se manifesta em diferentes dimensões, incluindo a produção do conhecimento científico. 

“A descolonização foi um processo político, mas a colonialidade permanece na nossa sociedade. Ela se expressa nas relações de poder, no saber e nas desigualdades que excluem determinadas populações das tomadas de decisão”, ressaltou. 


Heleno Araújo e Eduardo Caio dos Santos durante debate sobre decolonialidade, desigualdades educacionais e desafios para a construção de uma Pós-graduação mais inclusiva. Foto: Ricardo Schmidt

A sessão contou ainda com perguntas e comentários de docentes, pesquisadores e estudantes do IOC. Entre os temas levantados estiveram o eurocentrismo na produção científica, o racismo estrutural na academia, os critérios de avaliação da Pós-graduação e a valorização de saberes produzidos por populações historicamente marginalizadas. 

Participantes destacaram que a predominância de referenciais teóricos europeus e norte-americanos e os sistemas de avaliação baseados principalmente em métricas de impacto internacional podem dificultar a valorização de pesquisas voltadas a contextos locais. 

Também foram discutidos caminhos para promover mudanças institucionais, incluindo políticas afirmativas, revisão de currículos e ampliação da representatividade nos espaços de decisão acadêmica. 

Ao final do encontro, Heleno Araújo destacou que muitos dos avanços necessários para a educação já estão previstos na legislação, mas ainda não são efetivamente implementados. 

“Se aquilo que já conquistamos na legislação fosse plenamente aplicado, teríamos uma realidade muito diferente na educação brasileira”, concluiu. 

Edição: 
Vinicius Ferreira

Permitida a reprodução sem fins lucrativos do texto desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)