
Uma cientista de jaleco, máscara e luvas segura um frasco diante dos olhos. Atrás dela, formas orgânicas em vermelho se espalham pelo quadro, como se as lentes do microscópio tivessem virado do avesso e, de repente, os minúsculos seres que antes cabiam apenas nas lâminas de microscopia revelam sua beleza para todos.
A cena compõe uma das mais de 70 obras presentes na exposição ‘O espetáculo das coisas nos 125 anos do IOC’, inaugurada no último dia 1º de abril, na Seção de Obras Raras A. Overmeer, no Castelo Mourisco da Fiocruz, em Manguinhos (RJ).
A mostra reúne trabalhos de 16 artistas e propõe um diálogo entre arte e produção científica, a partir de experiências vividas nos laboratórios do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).
A visitação acontece até 25 de maio, sempre de terça a sexta (exceto feriados), das 10h às 16h. A entrada é gratuita. Ao longo do período, as obras serão renovadas, permitindo que os visitantes retornem e encontrem novos trabalhos a cada visita.
Realizada em parceria com a Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA/UFRJ), a exposição é resultado do projeto de extensão ‘Curto Circuito – Arte, Ciência e Inovação’, que, desde 2018, insere estudantes de artes visuais em ambientes de pesquisa do IOC.

A proposta da iniciativa é aproximar artistas do cotidiano científico para criar novas formas de interpretar e comunicar a ciência. O resultado são obras que transitam entre o figurativo e o abstrato, inspiradas tanto em coleções biológicas quanto nos processos e rotinas dos laboratórios.
A curadoria é de Anunciata Sawada, do Laboratório de Inovações em Terapias, Ensino e Bioprodutos do IOC, e Dalila Santos, da EBA/UFRJ.

Para Dalila, o encontro entre arte e ciência é mais natural do que parece.
“A ciência e a arte, apesar de parecerem campos distintos, se afinizam o tempo todo. A arte está presente em nossas vidas, assim como a ciência, nas mínimas coisas. É só prestar atenção ao que está à sua volta”, afirmou.
Para Anunciata, a escolha do Castelo Mourisco da Fiocruz como espaço expositivo também reforça esse diálogo.
“O castelo em si é uma obra de arte e quando ele abriga uma exposição como essa, está cumprindo o seu papel”, apontou a especialista ao lembrar que Oswaldo Cruz era um apreciador das artes.
A obra descrita no início desta reportagem é de autoria do artista visual Alex Matheus da Hora, um dos 16 participantes da mostra. Inspirado pelo cotidiano da ciência, ele buscou traduzir, em imagem, aquilo que observava nos laboratórios.
“Eu já estava há um tempo acompanhando a rotina dos pesquisadores, e ver aquele momento, com a cientista concentrada em seu ofício, me chamou atenção”, contou.
A partir dessa cena, o artista procurou registrar não apenas o gesto científico, mas também as formas que surgiam diante das lentes.
“Eu via muitas cores, microrganismos e coisas que eu não conhecia. Como artista, contudo, eu via abstração, e trouxe isso para o trabalho”, explicou.

Retratada na obra, a pós-doutoranda Ludmila Fiuza, do Laboratório de Biologia Celular do IOC, destacou o impacto de se ver representada artisticamente.
“É emocionante, porque quando escolhemos trabalhar com biologia, com ciência em laboratório, sabemos que muitas vezes ficamos nos bastidores”, afirmou.
Para ela, a visibilidade proporcionada pela arte ajuda a reconhecer o trabalho coletivo que sustenta a produção científica. A pesquisadora também ressalta que a obra contribui para romper estereótipos dentro do meio científico.
“O quadro tira aquela ideia do cientista como alguém estranho e mostra que existe beleza tanto no que ele faz quanto nele próprio”, complementou.
Já a artista visual Juliana Gonçalves descreveu o contato com os laboratórios como um processo de transformação pessoal e profissional. Segundo ela, o interesse pelo mundo natural vem desde a infância, mas ganhou novos contornos a partir da vivência no Instituto.
“Foi um mundo completamente diferente, em que tudo era incrível. Os cheiros, as cores, tudo despertava atenção”, disse, relembrando a época em que passou a frequentar os laboratórios do IOC.

A trajetória no projeto também atravessou diferentes áreas do conhecimento. Formada em Artes pela EBA, Juliana passou por laboratórios distintos — como o de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios e o de Malacologia — e acabou ampliando sua formação para além do campo artístico. Hoje, além de estudar e atuar com educação, também se aproxima da biologia, incorporando diferentes experiências ao seu percurso.
Essa multiplicidade aparece também em suas obras, que buscam reunir diferentes dimensões da prática científica, do laboratório ao campo, passando pelas ações de extensão e contato com o público.
Se, no início desta reportagem, o microscópio parecia ter sido virado do avesso, ao final, ficou a sensação de que ele se ampliou e ocupou toda a Seção de Obras Raras A. Overmeer, no Castelo Mourisco da Fiocruz.
Com a exposição, o que antes fazia parte do cotidiano dos laboratórios ganha forma, cor e história e passa a ser compartilhado com o público sob novos olhares.
Como resumiu o diretor da Escola de Belas Artes da UFRJ, Daniel Aguiar, durante a abertura da exposição, “ciência e arte só são duas coisas separadas quando você não olha no microscópio”.
A abertura oficial da exposição, realizada no auditório Arthur Neiva no dia 1º/04, reuniu representantes do Instituto Oswaldo Cruz e da Escola de Belas Artes para marcar a consolidação da parceria entre as instituições.
Durante a cerimônia, a diretora do IOC, Tania Araujo-Jorge, ressaltou o caráter coletivo e contínuo da iniciativa. Segundo ela, a chamada ‘CienciArte’ — conceito que expressa a integração entre os dois campos — cria um espaço de troca pouco convencional, mas essencial.
Para o diretor da EBA/UFRJ, Daniel Couto, a iniciativa amplia o alcance da formação acadêmica ao conectar estudantes a outros campos do conhecimento.
Serviço
Exposição “O espetáculo das coisas nos 125 anos do IOC”
Abertura: 1º de abril, a partir das 9h30
Visitação: 1º de abril a 25 de maio, sempre de terça a sexta (exceto feriados), das 10h às 16h. Para mais informações, acesse o site do Museu da Vida
Local: Seção de Obras Raras A. Overmeer, no Castelo Mourisco da Fiocruz (Av. Brasil, 4365 – Manguinhos, Rio de Janeiro)
Valor: gratuito
Artistas participantes: Alex Matheus da Hora, Ana Luiza Monteiro, Antonio Lúcio Martin, Antonio Reis, Beatriz Lemos, Cecilia Abreu, Clara Vieira, Juliana Gonçalves, Marcelo Frutuoso, Maria Paula Estrella, Meri Lane Oliveira, Miguel Neves, Nicole Lobo, Sara Fonseca, Valentina Terra e Vitória Veríssimo

Uma cientista de jaleco, máscara e luvas segura um frasco diante dos olhos. Atrás dela, formas orgânicas em vermelho se espalham pelo quadro, como se as lentes do microscópio tivessem virado do avesso e, de repente, os minúsculos seres que antes cabiam apenas nas lâminas de microscopia revelam sua beleza para todos.
A cena compõe uma das mais de 70 obras presentes na exposição ‘O espetáculo das coisas nos 125 anos do IOC’, inaugurada no último dia 1º de abril, na Seção de Obras Raras A. Overmeer, no Castelo Mourisco da Fiocruz, em Manguinhos (RJ).
A mostra reúne trabalhos de 16 artistas e propõe um diálogo entre arte e produção científica, a partir de experiências vividas nos laboratórios do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).
A visitação acontece até 25 de maio, sempre de terça a sexta (exceto feriados), das 10h às 16h. A entrada é gratuita. Ao longo do período, as obras serão renovadas, permitindo que os visitantes retornem e encontrem novos trabalhos a cada visita.
Realizada em parceria com a Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA/UFRJ), a exposição é resultado do projeto de extensão ‘Curto Circuito – Arte, Ciência e Inovação’, que, desde 2018, insere estudantes de artes visuais em ambientes de pesquisa do IOC.

A proposta da iniciativa é aproximar artistas do cotidiano científico para criar novas formas de interpretar e comunicar a ciência. O resultado são obras que transitam entre o figurativo e o abstrato, inspiradas tanto em coleções biológicas quanto nos processos e rotinas dos laboratórios.
A curadoria é de Anunciata Sawada, do Laboratório de Inovações em Terapias, Ensino e Bioprodutos do IOC, e Dalila Santos, da EBA/UFRJ.

Para Dalila, o encontro entre arte e ciência é mais natural do que parece.
“A ciência e a arte, apesar de parecerem campos distintos, se afinizam o tempo todo. A arte está presente em nossas vidas, assim como a ciência, nas mínimas coisas. É só prestar atenção ao que está à sua volta”, afirmou.
Para Anunciata, a escolha do Castelo Mourisco da Fiocruz como espaço expositivo também reforça esse diálogo.
“O castelo em si é uma obra de arte e quando ele abriga uma exposição como essa, está cumprindo o seu papel”, apontou a especialista ao lembrar que Oswaldo Cruz era um apreciador das artes.
A obra descrita no início desta reportagem é de autoria do artista visual Alex Matheus da Hora, um dos 16 participantes da mostra. Inspirado pelo cotidiano da ciência, ele buscou traduzir, em imagem, aquilo que observava nos laboratórios.
“Eu já estava há um tempo acompanhando a rotina dos pesquisadores, e ver aquele momento, com a cientista concentrada em seu ofício, me chamou atenção”, contou.
A partir dessa cena, o artista procurou registrar não apenas o gesto científico, mas também as formas que surgiam diante das lentes.
“Eu via muitas cores, microrganismos e coisas que eu não conhecia. Como artista, contudo, eu via abstração, e trouxe isso para o trabalho”, explicou.

Retratada na obra, a pós-doutoranda Ludmila Fiuza, do Laboratório de Biologia Celular do IOC, destacou o impacto de se ver representada artisticamente.
“É emocionante, porque quando escolhemos trabalhar com biologia, com ciência em laboratório, sabemos que muitas vezes ficamos nos bastidores”, afirmou.
Para ela, a visibilidade proporcionada pela arte ajuda a reconhecer o trabalho coletivo que sustenta a produção científica. A pesquisadora também ressalta que a obra contribui para romper estereótipos dentro do meio científico.
“O quadro tira aquela ideia do cientista como alguém estranho e mostra que existe beleza tanto no que ele faz quanto nele próprio”, complementou.
Já a artista visual Juliana Gonçalves descreveu o contato com os laboratórios como um processo de transformação pessoal e profissional. Segundo ela, o interesse pelo mundo natural vem desde a infância, mas ganhou novos contornos a partir da vivência no Instituto.
“Foi um mundo completamente diferente, em que tudo era incrível. Os cheiros, as cores, tudo despertava atenção”, disse, relembrando a época em que passou a frequentar os laboratórios do IOC.

A trajetória no projeto também atravessou diferentes áreas do conhecimento. Formada em Artes pela EBA, Juliana passou por laboratórios distintos — como o de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios e o de Malacologia — e acabou ampliando sua formação para além do campo artístico. Hoje, além de estudar e atuar com educação, também se aproxima da biologia, incorporando diferentes experiências ao seu percurso.
Essa multiplicidade aparece também em suas obras, que buscam reunir diferentes dimensões da prática científica, do laboratório ao campo, passando pelas ações de extensão e contato com o público.
Se, no início desta reportagem, o microscópio parecia ter sido virado do avesso, ao final, ficou a sensação de que ele se ampliou e ocupou toda a Seção de Obras Raras A. Overmeer, no Castelo Mourisco da Fiocruz.
Com a exposição, o que antes fazia parte do cotidiano dos laboratórios ganha forma, cor e história e passa a ser compartilhado com o público sob novos olhares.
Como resumiu o diretor da Escola de Belas Artes da UFRJ, Daniel Aguiar, durante a abertura da exposição, “ciência e arte só são duas coisas separadas quando você não olha no microscópio”.
A abertura oficial da exposição, realizada no auditório Arthur Neiva no dia 1º/04, reuniu representantes do Instituto Oswaldo Cruz e da Escola de Belas Artes para marcar a consolidação da parceria entre as instituições.
Durante a cerimônia, a diretora do IOC, Tania Araujo-Jorge, ressaltou o caráter coletivo e contínuo da iniciativa. Segundo ela, a chamada ‘CienciArte’ — conceito que expressa a integração entre os dois campos — cria um espaço de troca pouco convencional, mas essencial.
Para o diretor da EBA/UFRJ, Daniel Couto, a iniciativa amplia o alcance da formação acadêmica ao conectar estudantes a outros campos do conhecimento.
Serviço
Exposição “O espetáculo das coisas nos 125 anos do IOC”
Abertura: 1º de abril, a partir das 9h30
Visitação: 1º de abril a 25 de maio, sempre de terça a sexta (exceto feriados), das 10h às 16h. Para mais informações, acesse o site do Museu da Vida
Local: Seção de Obras Raras A. Overmeer, no Castelo Mourisco da Fiocruz (Av. Brasil, 4365 – Manguinhos, Rio de Janeiro)
Valor: gratuito
Artistas participantes: Alex Matheus da Hora, Ana Luiza Monteiro, Antonio Lúcio Martin, Antonio Reis, Beatriz Lemos, Cecilia Abreu, Clara Vieira, Juliana Gonçalves, Marcelo Frutuoso, Maria Paula Estrella, Meri Lane Oliveira, Miguel Neves, Nicole Lobo, Sara Fonseca, Valentina Terra e Vitória Veríssimo
Permitida a reprodução sem fins lucrativos do texto desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)