Um estudo coordenado por pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) identificou, pela primeira vez, a coexistência do protozoário Giardia lamblia, causador da giardíase, com fungos oportunistas de diferentes espécies no intestino de crianças, revelando que a doença pode estar inserida em um quadro mais amplo de desequilíbrio no conjunto de microrganismos do intestino.
Uma das infecções intestinais mais comuns na infância, a giardíase pode provocar diarreia, dor abdominal, gases, náusea e perda de apetite. Em crianças pequenas, especialmente em contextos de vulnerabilidade social, a infecção também pode estar associada a dificuldades de ganho de peso e prejuízos ao desenvolvimento.
A pesquisa, publicada na revista científica internacional Frontiers in Cellular and Infection Microbiology, analisou amostras fecais de crianças atendidas em uma creche localizada em comunidade da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Os resultados revelaram uma associação inédita entre a giardíase e determinadas espécies de leveduras potencialmente patogênicas. Ao todo, foram avaliadas amostras de fezes de 25 crianças com idades entre 1 e 4 anos. Treze apresentaram resultado positivo para Giardia lamblia.
Dessas, 10 também apresentaram crescimento de Candida parapsilosis, considerada atualmente um fungo emergente de importância clínica.
Em alguns casos, houve ainda a coexistência com outras espécies, como Candida tropicalis, Candida krusei e Saccharomyces cerevisiae. Chamados de ‘fungos oportunistas’, esses microorganismos normalmente não causam sintomas quando presentes na microbiota, mas tendem a se multiplicar em excesso se o intestino estiver fragilizado, seja por inflamação, baixa imunidade ou alterações no equilíbrio interno.
Segundo os pesquisadores, embora o desenho do estudo não permita afirmar uma relação direta de causa e efeito entre a infecção pelo protozoário e a presença dos fungos, os achados acendem um alerta importante sobre possíveis interações entre diferentes microrganismos no intestino infantil, especialmente em contextos de vulnerabilidade social.
“O estudo revela a possibilidade de coexistência, e não uma relação de causa e efeito. Em outras palavras, nós observamos que o protozoário Giardia lamblia e determinados fungos compartilham frequentemente o habitat intestinal. Contudo, ainda não é possível afirmar se a presença de um interfere ou não na existência e em características biológicas do outro”, explica o pesquisador do Laboratório de Taxonomia, Bioquímica e Bioprospecção de Fungos do IOC, Manoel Oliveira.
Além do laboratório de Oliveira, o trabalho também envolveu pesquisadores do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisas Médicas e do Laboratório de Pesquisas sobre o Timo do Instituto. O estudo ainda contou com a colaboração da especialista da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Maria Fantinatti.
A pesquisa foi realizada em uma comunidade caracterizada por infraestrutura urbana limitada e acesso restrito a saneamento básico.
Segundo Oliveira e Fantinatti, fatores como o contato frequente com ambientes contaminados e um sistema imunológico ainda em desenvolvimento criam condições propícias para a circulação simultânea de diferentes microrganismos no intestino infantil, ampliando o risco de infecções e desequilíbrios que vão além de um único agente.
“Uma boa analogia é pensar o intestino como um ecossistema: quando esse ambiente sofre alterações — seja por infecção, má nutrição ou condições sanitárias precárias —, vários microrganismos podem se beneficiar desse desequilíbrio ao mesmo tempo. Portanto, o estudo indica um sinal de alerta sobre a necessidade de compreender os impactos desta coexistência no hospedeiro, especialmente em crianças”, refletem os pesquisadores.
Embora alguns casos de giardíase sejam assintomáticos, a presença do protozoário altera a barreira intestinal e pode provocar desequilíbrios na microbiota — o conjunto de microrganismos que vivem naturalmente no intestino —, criando um ambiente favorável à colonização de fungos oportunistas.

Dentre os microrganismos identificados pela pesquisa, a alta frequência de Candida parapsilosis chamou a atenção dos cientistas.
A espécie é considerada uma das principais causas de infecções fúngicas invasivas em ambientes hospitalares e tem ganhado destaque nos últimos anos devido ao aumento de casos graves, especialmente em indivíduos imunocomprometidos.
Estudos anteriores já haviam demonstrado que a infecção por Giardia lamblia está associada a alterações na microbiota bacteriana. No entanto, pouco se sabia sobre a composição da microbiota fúngica nesses pacientes.
O novo trabalho preenche parte dessa lacuna ao mapear, de forma inédita, os fungos presentes no intestino de crianças com giardíase.
“A maior parte da literatura foca na disbiose bacteriana causada pela Giardia lamblia, mas a relação da microbiota fúngica com a presença de parasitos intestinais ainda é pouco explorada. Nosso trabalho é pioneiro ao demonstrar, em crianças brasileiras em situação de vulnerabilidade social, a presença frequente de fungos considerados emergentes ou oportunistas”, aponta Fantinatti.
Os pesquisadores ressaltam que, em ambientes reais e socialmente vulneráveis, é difícil determinar qual microrganismo representa a infecção primária. Ainda assim, a observação clínica indicou que os sintomas apresentados pelas crianças eram compatíveis principalmente com a giardíase, sugerindo que a infecção pelo protozoário tenha ocorrido primeiro.
“Apesar do pequeno número de amostras analisadas, o estudo é considerado altamente relevante por inaugurar uma nova linha de investigação no campo das doenças infecciosas negligenciadas”, salienta Manoel.
Os achados ganham ainda mais relevância no contexto atual, em que infecções fúngicas graves passaram a receber maior atenção da comunidade científica após a pandemia da Covid-19.
Nesse cenário, a pesquisa do IOC também dialoga com políticas públicas recentes voltadas ao enfrentamento das doenças negligenciadas, como o programa Brasil Saudável, do Ministério da Saúde, que busca ampliar ações de vigilância, diagnóstico e prevenção em territórios vulneráveis.
“O estudo reforça que a saúde intestinal infantil é um reflexo direto das condições de vida e que combater parasitoses exige ações que vão além do tratamento medicamentoso, incluindo políticas públicas de saneamento, nutrição e redução das desigualdades sociais”, finaliza Oliveira.
Um estudo coordenado por pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) identificou, pela primeira vez, a coexistência do protozoário Giardia lamblia, causador da giardíase, com fungos oportunistas de diferentes espécies no intestino de crianças, revelando que a doença pode estar inserida em um quadro mais amplo de desequilíbrio no conjunto de microrganismos do intestino.
Uma das infecções intestinais mais comuns na infância, a giardíase pode provocar diarreia, dor abdominal, gases, náusea e perda de apetite. Em crianças pequenas, especialmente em contextos de vulnerabilidade social, a infecção também pode estar associada a dificuldades de ganho de peso e prejuízos ao desenvolvimento.
A pesquisa, publicada na revista científica internacional Frontiers in Cellular and Infection Microbiology, analisou amostras fecais de crianças atendidas em uma creche localizada em comunidade da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Os resultados revelaram uma associação inédita entre a giardíase e determinadas espécies de leveduras potencialmente patogênicas. Ao todo, foram avaliadas amostras de fezes de 25 crianças com idades entre 1 e 4 anos. Treze apresentaram resultado positivo para Giardia lamblia.
Dessas, 10 também apresentaram crescimento de Candida parapsilosis, considerada atualmente um fungo emergente de importância clínica.
Em alguns casos, houve ainda a coexistência com outras espécies, como Candida tropicalis, Candida krusei e Saccharomyces cerevisiae. Chamados de ‘fungos oportunistas’, esses microorganismos normalmente não causam sintomas quando presentes na microbiota, mas tendem a se multiplicar em excesso se o intestino estiver fragilizado, seja por inflamação, baixa imunidade ou alterações no equilíbrio interno.
Segundo os pesquisadores, embora o desenho do estudo não permita afirmar uma relação direta de causa e efeito entre a infecção pelo protozoário e a presença dos fungos, os achados acendem um alerta importante sobre possíveis interações entre diferentes microrganismos no intestino infantil, especialmente em contextos de vulnerabilidade social.
“O estudo revela a possibilidade de coexistência, e não uma relação de causa e efeito. Em outras palavras, nós observamos que o protozoário Giardia lamblia e determinados fungos compartilham frequentemente o habitat intestinal. Contudo, ainda não é possível afirmar se a presença de um interfere ou não na existência e em características biológicas do outro”, explica o pesquisador do Laboratório de Taxonomia, Bioquímica e Bioprospecção de Fungos do IOC, Manoel Oliveira.
Além do laboratório de Oliveira, o trabalho também envolveu pesquisadores do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisas Médicas e do Laboratório de Pesquisas sobre o Timo do Instituto. O estudo ainda contou com a colaboração da especialista da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Maria Fantinatti.
A pesquisa foi realizada em uma comunidade caracterizada por infraestrutura urbana limitada e acesso restrito a saneamento básico.
Segundo Oliveira e Fantinatti, fatores como o contato frequente com ambientes contaminados e um sistema imunológico ainda em desenvolvimento criam condições propícias para a circulação simultânea de diferentes microrganismos no intestino infantil, ampliando o risco de infecções e desequilíbrios que vão além de um único agente.
“Uma boa analogia é pensar o intestino como um ecossistema: quando esse ambiente sofre alterações — seja por infecção, má nutrição ou condições sanitárias precárias —, vários microrganismos podem se beneficiar desse desequilíbrio ao mesmo tempo. Portanto, o estudo indica um sinal de alerta sobre a necessidade de compreender os impactos desta coexistência no hospedeiro, especialmente em crianças”, refletem os pesquisadores.
Embora alguns casos de giardíase sejam assintomáticos, a presença do protozoário altera a barreira intestinal e pode provocar desequilíbrios na microbiota — o conjunto de microrganismos que vivem naturalmente no intestino —, criando um ambiente favorável à colonização de fungos oportunistas.

Dentre os microrganismos identificados pela pesquisa, a alta frequência de Candida parapsilosis chamou a atenção dos cientistas.
A espécie é considerada uma das principais causas de infecções fúngicas invasivas em ambientes hospitalares e tem ganhado destaque nos últimos anos devido ao aumento de casos graves, especialmente em indivíduos imunocomprometidos.
Estudos anteriores já haviam demonstrado que a infecção por Giardia lamblia está associada a alterações na microbiota bacteriana. No entanto, pouco se sabia sobre a composição da microbiota fúngica nesses pacientes.
O novo trabalho preenche parte dessa lacuna ao mapear, de forma inédita, os fungos presentes no intestino de crianças com giardíase.
“A maior parte da literatura foca na disbiose bacteriana causada pela Giardia lamblia, mas a relação da microbiota fúngica com a presença de parasitos intestinais ainda é pouco explorada. Nosso trabalho é pioneiro ao demonstrar, em crianças brasileiras em situação de vulnerabilidade social, a presença frequente de fungos considerados emergentes ou oportunistas”, aponta Fantinatti.
Os pesquisadores ressaltam que, em ambientes reais e socialmente vulneráveis, é difícil determinar qual microrganismo representa a infecção primária. Ainda assim, a observação clínica indicou que os sintomas apresentados pelas crianças eram compatíveis principalmente com a giardíase, sugerindo que a infecção pelo protozoário tenha ocorrido primeiro.
“Apesar do pequeno número de amostras analisadas, o estudo é considerado altamente relevante por inaugurar uma nova linha de investigação no campo das doenças infecciosas negligenciadas”, salienta Manoel.
Os achados ganham ainda mais relevância no contexto atual, em que infecções fúngicas graves passaram a receber maior atenção da comunidade científica após a pandemia da Covid-19.
Nesse cenário, a pesquisa do IOC também dialoga com políticas públicas recentes voltadas ao enfrentamento das doenças negligenciadas, como o programa Brasil Saudável, do Ministério da Saúde, que busca ampliar ações de vigilância, diagnóstico e prevenção em territórios vulneráveis.
“O estudo reforça que a saúde intestinal infantil é um reflexo direto das condições de vida e que combater parasitoses exige ações que vão além do tratamento medicamentoso, incluindo políticas públicas de saneamento, nutrição e redução das desigualdades sociais”, finaliza Oliveira.
Permitida a reprodução sem fins lucrativos do texto desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)