Fiocruz

Cientista

Sempre com um lápis à mão, Oswaldo Cruz costumava ler tomando notas daquilo que fosse mais relevante. Em obras robustas, poderia recorrer a um caderninho, a ser encartado na brochura. Cadernetas recheadas, pequenos guias sobre temas específicos redigidos em folhas esparsas, esboços de mosquitos transmissores de doenças e até ilustrações coloridas de órgãos dão uma amostra de como o cientista se debruçava para estudar os mais diferentes temas no campo da saúde.

A inspiração para a medicina veio de casa. O exemplo era o pai, o médico Bento Gonçalves Cruz, com quem o jovem Oswaldo mantinha uma forte relação de afeto e admiração.Ingressou com apenas 15 anos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, a mesma onde o pai havia estudado. Logo no segundo ano, iniciou as atividades como ajudante no Laboratório de Higiene da faculdade, liderado pelo professor Benjamin Antônio da Rocha Faria. Segundo Ezequiel Dias, foi ali que “lhe nasceu o gosto pelas questões de hygiene e microbiologia”. Como Carlos Chagas relata, “os privilegios de sua mocidade, soube elle aproveital-os no convivio dos livros e no labor das pesquizas, sempre retirado á actividade silenciosa dos laboratórios”. Já naquele momento inicial, “revelou-se um experimentor de alto senso” e, em sua trajetória, sempre dispensaria “carinho e reverencia” ao nome do professor que proporcionou alguns de seus primeiros contatos com o ambiente de experimentação. Em 1890, o laboratório seria convertido em Instituto Nacional de Higiene, e Oswaldo Cruz atuaria ali ainda por mais alguns anos, até 1893.

Já casado, montou em sua casa um pequeno laboratório. Salles Guerra conta que, em 1894, esteve na residência de Oswaldo Cruz para prestar atendimento médico à sua filha Elisa e ficou surpreso ao encontrar um “laboratório de análises e pesquisas” no pavimento térreo – que Oswaldo contou ter sido presente de casamento oferecido pelo sogro.

Nas palavras de Rui Barbosa, Oswaldo Cruz era dedicado ao “mundo infinitamente mínimo”. Este interesse é testemunhado nas frases iniciais da tese de conclusão da Faculdade de Medicina, em que relata “o panorama encantador que se divisa quando se coloca os olhos na ocular d’um microscópio”. No texto, apresenta a intenção de que seus esforços intelectuais convergissem para uma “sciencia que se apoiasse na microscopia” e indica que, desde a primeira série do curso, lia obras sobre a técnica e se exercitava no uso deste que define como um “instrumento maravilhoso”.

Rui Barbosa situa que Oswaldo Cruz nasceu, “por feliz coincidência, ao alvorecer da era de Pasteur”. Estava em voga a abordagem das causalidades microbiológicas das doenças, associada a ações preventivas no campo da higiene. Essas ideias, porém, não estavam disseminadas de forma ampliada fora dos grupos médicos. Apesar dos esforços de diversos cientistas brasileiros neste sentido, “eramos um paiz onde não se acreditava em microbios”, sintetiza Ezequiel Dias, desenhando o cenário em que Oswaldo Cruz começou a atuar.

Após a formatura em medicina, a temporada no Instituto Pasteur foi fundamental para desenvolver as habilidades em microbiologia. Uma das motivações para a viagem foi o encorajamento por Francisco de Castro, professor de clínica propedêutica que fora assistente do pai de Oswaldo Cruz. Ele costumava criticar a timidez do jovem e aconselhou-o a rumar para estudos na Europa.

A dimensão microscópica era o impulso, mas os impactos da ciência eleita por Oswaldo Cruz podiam chegar à dimensão de uma cidade inteira. Ao mesmo tempo, o ponto de partida estava em problemas concretos que demandavam solução. Um exemplo deste conjunto de características, a tese de conclusão do curso de medicina estava pautada na transmissão de micróbios em meios hídricos, o que o estudante alega ser assunto “de palpitante interesse e cheio de conclusões praticas da mais alta monta”. Nestas breves palavras, ficam demarcados tanto o vigor da sua dedicação quanto o interesse em uma ciência ligada a aspectos práticos. Ali, partia de algo absolutamente concreto: os riscos presentes na água que chegava às torneiras. E propunha conclusões plenamente práticas, incluindo qual tipo de filtragem usar para garantir a qualidade da água, qual o uso seguro do gelo e outras medidas de profilaxia com base nas premissas da higiene. Talvez por essa abordagem, a cobertura noticiosa que o Jornal do Brasil realizou à época indica que a tese tem leitura proveitosa “não só ao profissional ou ao homem de sciencia, mas tambem a todos quantos têm interesse sincero pela saude propria”.

Além de partir de problemas concretos e trazer conclusões práticas, envolvendo microscopia e princípios da higiene, era uma ciência orientada pela pesquisa – pela experimentação, conforme a terminologia em uso na época. Na tese, testou os tipos de filtragem, analisando os efeitos sobre uma variedade de amostras de água. Durante os estudos de toxicologia realizados em Paris, simultaneamente ao período dedicado aos estudos de microbiologia no Instituto Pasteur, recorreu à experimentação para esclarecer uma morte relacionada a envenenamento por gás: a solução foi realizar testes com animais simulando as hipóteses do que haveria ocorrido.

Em Manguinhos, nas primeiras atividades destinadas à obtenção de soro e vacina para a peste bubônica, a experimentação estava atrelada de forma inseparável ao processo de produção destes insumos. Um procedimento básico estava estabelecido no meio científico, mas o jovem Oswaldo Cruz implementava ajustes e aperfeiçoava o processo – feito de forma altamente artesanal para os padrões de hoje –, verificando a eficácia dos produtos resultantes por meio de testes em animais.

O esmero na técnica era um traço central do seu perfil como cientista. Carlos Chagas destaca a “observação demorada” e o “rigor máximo nas conclusões possiveis” como características marcantes. Quando tomou posse na Academia Nacional de Medicina, em 1899, Oswaldo Cruz expressou em seu discurso o compromisso de trabalhar “com coragem, sem outra preocupacção que não o descobrimento da verdade, suprindo a incompetencia pela perseverança” e imprimindo aos estudos “a mais intransigente honestidade”. Já Ezequiel Dias relata que “ninguém como Elle sabia entrever as causas de erro, as apparencias enganosas, as conclusões illogicas”.

Tinha atenção a elementos de natureza operacional. Em caligrafia própria, anotações com um guia breve dos requisitos para montar um laboratório – mesas, cadeiras, microscópios, meios de cultura, entre muitos outros itens – evidenciam a preocupação com os aspectos estruturais da atividade científica. Em Manguinhos, foi dele a responsabilidade de elaborar a lista de materiais a serem adquiridos para o início das atividades. Da temporada em Paris, voltou com mais do que os conhecimentos em microbiologia obtidos no Instituto Pasteur: aprendeu o processo de produção de utensílios de vidro usados em laboratório, o que seria fundamental para as futuras atividades no Brasil. Salles Guerra descreve que chegou a capacitar auxiliares de Manguinhos na técnica.

Engenhoso, para o estudo apresentado na tese de conclusão do curso de medicina criou um equipamento para coleta de água que permitia a obtenção de amostras de diversas profundidades sem contaminação pelo líquido situado nas porções superiores. Na descrição do aparelho, Oswaldo Cruz ressalta a facilidade de transporte e de esterilização – um senso de inovação, como poderíamos chamar nos dias de hoje, marcado por criatividade a serviço do método e pontuado pela atenção à praticidade.

Quando liderava as atividades técnicas para produção da vacina contra a peste bubônica no início das atividades em Manguinhos, época em que as opiniões divergiam sobre a melhor metodologia a ser adotada, desenvolveu um aperfeiçoamento produtivo em que a dosagem a ser envasada em cada recipiente era estabelecida pelo peso. Chamou o procedimento de “modificação do Instituto de Manguinhos”, abdicando de adotar o próprio nome. Foi inovador também na nomenclatura. Há relatos de que, quando responsável pelo enfrentamento da peste bubônica no cargo de diretor geral de Saúde Pública, criou o neologismo “desratização”, referente ao controle de roedores que é parte da profilaxia da doença.

Além de ser um homem de laboratório, tinha experiência no atendimento clínico de pacientes. A febre amarela é um exemplo desta abordagem híbrida. O empenho no combate à doença, quando liderou a Diretoria Geral de Saúde Pública, remontava à sua atuação durante o tratamento de pacientes. Ezequiel Dias conta que foi na clínica em que sucedera o pai após sua morte, que Oswaldo Cruz “conheceu de perto a febre amarela, com todos os seus horrores”. Relata ainda que ele mesmo e outros pioneiros de Manguinhos ouviam a narrativa de casos a que Oswaldo Cruz assistira e “que se lhe gravaram para sempre na memória”. Daí, segundo Ezequiel, surgiu o interesse de Oswaldo em acompanhar os trabalhos exitosos contra a febre amarela em Cuba, baseados no controle dos mosquitos transmissores. O cientista fez, inclusive, uma tentativa de mobilização: “falava aos discipulos na possibilidade de realizar semelhante campanha no Rio de Janeiro, chegando a propor aos seus minguados auxiliares uma tentativa parcial n’um arrabalde, afim de apresentar aos poderes públicos uma demonstração pratica e convincente”.

A premissa de conhecer para agir guiava sua abordagem científica. Como diretor geral de Saúde Pública, em 1905, Oswaldo “pensou n’uma grande remodelação sanitaria que abrangesse todo o paiz, especialmente os portos”, como Ezequiel Dias descreve. Passou a coletar dados para esta tarefa, em uma viagem “exhaustiva e incommoda”, ao longo da costa e principais rios navegáveis, levando a bordo um laboratório ambulante. A partir das visitas, produziu um levantamento das condições e indicou as medidas sanitárias a serem adotadas, em especial em relação à cólera e à peste.

A mesma premissa conduzia as ações de Manguinhos para, como Rui Barbosa sintetiza, “estudar as doenças brasileiras”. Mesmo com limitados recursos humanos, Oswaldo Cruz mobilizou o Instituto para expedições diversas, que buscavam mapear e definir ações sobre os problemas de saúde do país. As incursões foram numerosas. À expedição de combate à malária na Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, o próprio Oswaldo se incorpora, em 1910. Dois anos depois, a famosa viagem de Arthur Neiva e Belisário Penna percorre Bahia, Pernambuco, Piauí e Goiás. Apesar do enfrentamento da varíola, peste bubônica e febre amarela serem os feitos mais conhecidos do cientista, para Carlos Chagas Filho é preciso, no conjunto de êxitos de Oswaldo Cruz, “assinalar a penetração da medicina no interior do Brasil”. Ele diz que este movimento começou “com a campanha profilática que acompanhou a penetração continente adentro da estrada de ferro Madeira-Mamoré e depois veio a se continuar pela irradiação de Manguinhos em todo o Brasil, seja pelo envio de missões e seus especialistas para resolverem problemas de saúde assoladores de nossa população, seja pelos cursos realizados na sede da instituição, que vieram levar, a todos os pontos do território, a magia dos exames de laboratório.”

Seu papel como cientista nunca seria separado das atividades enquanto gestor, tanto em Manguinhos quanto na Diretoria Geral de Saúde Pública. Nem jamais se descolaria da competência em formar novas gerações de cientistas para a saúde pública. A capacidade de despertar a “ânsia de saber” entre os discípulos é destacada por Arthur Neiva, que ingressou nos primeiros anos de Manguinhos. Carlos Chagas conta que Oswaldo Cruz era capaz de identificar as inclinações de cada discípulo e aproveitar cada uma delas. Henrique Aragão descreve que “passados os períodos iniciais de aprendizagem, preferia que os discípulos escolhessem os assuntos em que desejassem trabalhar, seguindo suas próprias tendências científicas”.

Outro aspecto da atuação científica de Oswaldo Cruz ressaltado por Henrique Aragão consiste na multiplicidade de temas de pesquisa estudados em Manguinhos. “Observando-se os assuntos cuidados por Oswaldo e seus primeiros discípulos, o que chama a atenção é a sua grande diversidade, esboçando-se assim, desde o início, uma das características mais marcantes da Instituição, em todos os tempos, que tem sido o maior ecletismo nas suas diretivas científicas, no campo da Biologia e da Medicina Experimental. Esta orientação, a um tempo sagaz e feliz de Oswaldo, conferiu desde logo ao Instituto uma grande amplitude de ação no terreno da investigação científica, oferecendo maior oportunidade aos pesquisadores para seguirem seus pendores próprios”, resume.

Carlos Chagas diz que, “conhecedor de todos os assumptos de experimentação medica, e principalmente possuidor de uma technica perfeita e de conhecimentos exactos relativos á bacteriologia, foi ele quem iniciou todos os discípulos nos processos elementares de pesquizas e quem os orientou de acordo com as habilidades de cada um”. E completa: “seu vasto saber e rara competencia em estudos de laboratorio beneficiavam ás pesquizas de todos os jovens experimentadores de Manguinhos, que dele lucravam, nas emergencias difficeis de uma interpretação duvidosa ou nas deficiencias individuaes, a palavra de acerto e os ensinamentos necessarios á conquista da verdade exacta”.

Encorajava as investigações que lhe eram sugeridas, como Henrique Aragão relata, por saber que “em ciência, não há assunto esgotado merecendo todos a atenção de quem tiver capacidade, tenacidade e inspiração para explorá-los”. Salles Guerra conta que buscava conhecer aquilo que ainda estava por ser descoberto. “Seu empenho era desvendar novos horizontes, campos enexplorados, por caminhos ainda incertos”, descreve. Sintetiza sua energia enquanto cientista definindo-o como um “pesquizador infatigável”. Entre incertezas, sua resposta sempre foi a perseverança.

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