Fiocruz

Herança

Oswaldo Cruz por quem vive seu legado: Pessoas que vivenciam o Instituto Oswaldo Cruz de hoje falam das suas impressões sobre o cientista.

Uma conversa com Oswaldo Cruz: Trabalhadores e estudantes do Instituto contam como reagiriam a esta oportunidade única e inesperada.

O nome e a figura de Oswaldo Cruz são tema obrigatório nos livros de história. Foram objeto de biografias, prêmios, cédulas, selos e até composições musicais – da ópera ao enredo de escola de samba.

Não há sequer uma capital de estado brasileira sem uma rua, praça ou serviço público que leve seu nome. A data de 5 de agosto foi definida como Dia Nacional da Saúde em homenagem ao seu nascimento, num exemplo da personificação, que se tornou, da própria saúde no país.

Legados, são muitos. O controle das epidemias de febre amarela, varíola e peste bubônica. O estabelecimento da vacinação como uma prática de rotina no país. O Instituto Oswaldo Cruz e a Fiocruz. A nacionalização da ciência médica, conforme o médico Oscar Freire define, “estabelecendo o princípio de que é no Brasil que se devem fazer a medicina e a higiene para o Brasil”. Ou, como o cientista Carlos Chagas Filho destaca, o fomento da atuação da medicina no interior do país.

Em Manguinhos, sua herança é evidente. O cientista imprimiu sua marca à instituição que, mais que seu nome, carrega seu sentimento de serviço público, de amor à ciência e de compromisso com o Brasil. Rui Barbosa, no discurso pronunciado em 1917, sintetiza: “O instituto, que hoje lhe honra com o nome, não é só um laboratório de estudos: é um berço de inteligências originais, criado, no começo, pela iniciativa, depois fecundado pela presença e agora aviventado pela influência sobrevivente do mestre”.

“Um cientista visionário, Oswaldo Cruz zelou pela sustentabilidade da pesquisa realizada no Instituto a partir da formação de recursos humanos, um legado que guardamos até hoje”, destaca Wilson Savino, atual diretor do Instituto Oswaldo Cruz. Assim como outras 21 pessoas o fizeram antes, Savino tem a responsabilidade de ocupar a cadeira que um dia foi do sanitarista. Carlos Chagas, o primeiro a suceder Oswaldo Cruz na diretoria, define Manguinhos como uma “obra de sciencia e de patriotismo” idealizada pelo cientista. Outro a ocupar a mesma função, Henrique Aragão relata: “cumpre que elle, morto, continue a dirigir os que vivemos, na permanência daquellas normas de trabalho, que fizeram o renome de nossa escola, e daquelles elevados ideaes de sciencia”.

"Após a morte precoce, a figura do cientista logo foi coberta de forte simbolismo. Entender o processo de construção do mito em torno de Oswaldo Cruz demanda considerar sua trajetória e também o contexto da época”, comenta a historiadora Nara Azevedo, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e autora do livro ‘Oswaldo Cruz: a construção de um mito na ciência brasileira’, publicado pela Editora Fiocruz.

Ela relembra que a vida pública do cientista teve início em 1899, com o combate à epidemia de peste bubônica em Santos. Pouco depois, como diretor geral de Saúde Pública, combateu a febre amarela, a peste bubônica e a varíola na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal da República recém-proclamada. “Oswaldo Cruz se dedicou prioritariamente à febre amarela, que, desde meados do século XIX, atormentava a cidade. Para combatê-la arregimentou muitos recursos financeiros e um exército de pessoas, os mata-mosquitos. Essa estratégia é bem conhecida e teve grande repercussão na época, atraindo a atenção sobre si e sobre o recém criado Instituto Soroterápico Federal, ou Instituto de Manguinhos, como ele chamava”, sintetiza, acrescentando que, embora tivesse o apoio do governo do presidente Rodrigues Alves, as medidas que tomou na Diretoria de Saúde da capital lhe renderam críticas e inimigos.

“Ele saiu do anonimato para a esfera pública sob uma saraivada de críticas de toda sorte. A imprensa da época é uma ótima fonte para avaliar o julgamento público que sofreu nesse momento”, a historiadora situa. Nara ressalta que Oswaldo Cruz e o Instituto Oswaldo Cruz – como o Instituto de Manguinhos passou a ser chamado a partir de 1908 – contribuíram de modo importante para o desenvolvimento científico e tecnológico brasileiro daquele tempo. “Pode-se dizer que integram a construção da República em suas primeiras décadas, principalmente ao mostrar como a ciência poderia ser um caminho útil e viável para superar as marcas do atraso legadas pelo passado colonial, e alcançar a civilização, como se dizia na época”, opina.

Após a morte, a figura de Oswaldo Cruz passou a representar um modelo de ação pública para os médicos e sanitaristas da época que desejavam promover reformas no âmbito da saúde pública – em especial, a criação de um Ministério da Saúde. Como explica Nara, sua imagem idealizada passou a ser utilizada pelos partidários do movimento sanitarista como um instrumento político para legitimar suas propostas de mudança para a saúde. “Assim, teve origem uma narrativa hagiográfica, mitológica sobre o cientista, que foi cultivada por várias gerações de médicos e sanitaristas ao longo do século XX", destaca.

Sobre as contribuições do pai para além das heranças científica e sanitária, Oswaldo Cruz Filho afirma que ele “construiu pelo exemplo, pela abnegação e pela humildade uma escola de saber e carater”. E completa: “nos níveis mais altos da erudição e da cultura, como nos corações mais humildes o nome do meu pai figura entre os grandes da Pátria.” Figurava e continua a figurar. Oswaldo Cruz é o cientista mais lembrado pelos brasileiros, como mostrou a pesquisa Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil, realizada em 2010. E está em vias de se tornar, oficialmente, um “herói da pátria”. No Senado Federal, tramita um projeto de lei que inclui seu nome no Livro dos Heróis da Pátria, destinado ao registro de brasileiros que tenham oferecido a vida ao país.

Em Manguinhos, a socióloga Stella Oswaldo Cruz vive uma situação muito particular. Servidora pública, atuando como documentarista na COC/Fiocruz, ela é também bisneta do cientista, como o sobrenome indica. “Ele era apaixonado pelo que fazia. Atuava em meio a uma ciência que era nova na época, cheia de incertezas. Acreditava naquilo, era apaixonado e isso dava energia para ele”, opina. Em outro ponto do Rio de Janeiro – por coincidência, nas proximidades da Avenida Oswaldo Cruz –, a vida do sanitarista é alvo das leituras de um jovem administrador. “Oswaldo foi um grande exemplo de homem, especialmente se considerarmos a administração pública no Brasil. A sua figura representa o esforço de eficiência, honestidade e comprometimento com o país e não com os seus próprios interesses”, ressalta Ugo Oswaldo Cruz sobre o bisavô. Ele, aliás, é bisneto de dois pioneiros de Manguinhos: além de Oswaldo, tem como bisavô Ezequiel Dias, que integrou a primeira formação do Instituto. Como Ezequiel se casou com a irmã da esposa de Oswaldo Cruz, os dois se tornaram concunhados. Anos depois, os filhos dos dois cientistas - que eram primos, portanto, e avós de Ugo - se casaram. “Eu reflito muito sobre o que meu bisavô viveu, seu comprometimento e o quanto conseguiu fazer, especialmente em relação ao Instituto. Eu acho que foi a obra mais importante dele, um legado construído com muito esforço, entrega e integridade”, resume.

Inseparáveis, homem e mito formam uma herança duradoura. Um século após a sua morte, Oswaldo Cruz segue como inspiração para gerações de brasileiros dedicados, como ele foi, aos ideais de “trabalho e justiça” e de “fé eterna na sciencia”.

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Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz)
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