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Evento destaca contaminação, 'pandemia das roças' e mudanças do clima na fronteira binacional

Encontro do projeto Mosaic no Oiapoque chamou atenção para problemas que atingem especialmente os povos tradicionais
Por Maíra Menezes12/12/2025 - Atualizado em 05/01/2026
Pesquisadores do projeto Mosaic com agentes ambientais indígenas e representantes da assocação Uasei no Centro de Formação Domingos Santa Rosa. Foto: Josué Damacena

Contaminação ambiental, doenças em plantas, grandes empreendimentos, secas prolongadas, chuvas intensas, acesso à saúde e doenças crônicas. Estes foram alguns dos temas mais citados pelos participantes do encontro promovido pela Fiocruz e instituições científicas da América do Sul, Europa e África para discutir problemas ligados a saúde, meio ambiente e clima, na fonteira do Brasil com a Guiana Francesa. 

Realizado no Oiapoque, nos dias 18 e 19 de novembro, o evento faz parte do projeto internacional ‘Aplicação multilocal da ciência aberta na criação de ambientes saudáveis envolvendo comunidades locais’, mais conhecido como ‘Mosaic’, na sigla em inglês. A iniciativa busca promover a saúde de populações em áreas de fronteira, através da criação de sistemas de informação para apoiar, no nível local, medidas de adaptação e mitigação de mudanças climáticas e ambientais.

Com objetivo de conhecer percepções das pessoas que vivem e atuam na região, os cientistas promoveram um encontro com 25 participantes, entre lideranças indígenas e comunitárias do Oiapoque; profissionais de saúde, saúde indígena, meio ambiente e educação do município, do estado do Amapá e do governo federal; especialistas de organizações não governamentais de saúde e indigenismo, além de representantes da Universidade e da Prefeitura da Guiana Francesa.

Rio Oiapoque e a floresta amazônica no território da Guiana Francesa vistos da cidade de Oiapoque. Foto: Josué Damacena

O evento ocorreu no campus binacional da Universidade Federal do Amapá (Unifap), no dia 18, e no Museu Kuahy, no dia 19. Atividades e jogos foram promovidos para estimular reflexões sobre saúde, clima e meio ambiente. Alguns dos principais desafios do território nestas temáticas foram discutidos em palestras.

Foi o segundo encontro anual com representantes de comunidades e instituições interessadas em colaborar com o projeto na fronteira binacional. De acordo com os pesquisadores, as atividades aprofundaram a compreensão sobre os desafios locais.

"Conseguimos entender melhor algumas questões que essas populações identificam em relação às mudanças climáticas e ambientais. A mudança de sazonalidade, por exemplo, dos períodos de seca e de chuva. São questões que as comunidades observam e que podemos trabalhar junto com elas para trazer outras informações", apontou Paulo Peiter,  pesquisador do IOC/Fiocruz e da PICTIS/Fiocruz, um dos líderes do Mosaic na área de ciência compartilhada com interessados locais.

Em atividade promovida pelos cientistas, participantes do evento relaram preocuapções ligadas ao clima, meio ambiente, saúde e outros aspectos que afetam o bem-viver na fronteira binacional. Foto: Josué Damacena

De acordo com os cientistas, as atividades também deram mais um passo na construção do mapa de organizações que atuam em saúde, meio ambiente e clima na fronteira, uma etapa importante do projeto Mosaic. 

“Esse mapa vai identificar quem são os atores que trabalham com saúde humana, animal e ambiental nestes territórios, como eles interagem com as comunidades tradicionais, que estão no centro do projeto Mosaic, como eles se conectam dentro de cada país e entre os países. É um trabalho que estamos fazendo dos dois lados da fronteira para qualificar as ligações que já existem e aquelas que precisam ser estabelecidas para que o fluxo de informação seja mais fluido e efetivo”, explica Verônica Marchon, pesquisadora do IOC/Fiocruz e da PICTIS/Fiocruz, integrante do projeto Mosaic. 

“Esta deve ser uma ferramenta operacional dentro da pesquisa e, posteriormente, para formuladores de políticas e todos os demais interlocutores. Qualquer pessoa que queira saber como responder a uma questão específica de saúde terá acesso não apenas ao mapa, mas também a fichas informativas sobre cada organização, detalhando os programas de pesquisa e saúde nos quais estão envolvidas e, mais importante, se seu trabalho é transfronteiriço", completa Valerie Morel, professora da Universidade de Artois (UA), na França, e uma das líderes do Mosaic na área de ciência compartilhada com interessados locais. 

Troca de experiências entre fronteiras

Em palestras, foram abordados o estudo da Universidade da Guiana Francesa sobre a doença conhecida como vassoura de bruxa, causada por um fungo que devastou roças de mandioca dos dois lados da fronteira e a investigação do Instituto Iepé que detectou alto nível de mercúrio em fios de cabelo de mulheres amapaenses que vivem próximo a áreas de garimpo. 

Emmanuel Roux, Paulo Peiter e Valérie Morel na abertura do encontro realizado na Unifap. Foto: Josué Damacena

O impacto de grandes empreendimentos realizados no Oiapoque para comunidades indígenas foi discutido a partir da análise sobre o processo de construção da BR-156, que liga a cidade do extremo norte à capital Macapá.  

“Oiapoque é um lugar que durante muito tempo esteve isolado do restante do país por questões estruturais. O trecho da rodovia que resta ser pavimentado é justamente o que atravessa a terra indígena Uaçá. Ao longo dos anos, isso foi sobreposto com questões de diversos outros empreendimentos que colocam pressão no território e impactam principalmente as comunidades tradicionais”, afirmou Ana Paula da Fonte, cientista social da PICTIS/Fiocruz e ponto focal do projeto Mosaic no Oiapoque, citando obras que vão desde a passagem de cabos de fibra ótica por terras indígenas até o começo da perfuração exploratória de poços de petróleo na costa do Amapá. 


Ana Paula da Fonte ressaltou importância da consulta aos povos indígenas para avaliar impactos de grandes empreendimentos. Foto: Josué Damacena

Representando a Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (Amim), Renata Lod, indígena Galibi Kali’na, falou sobre iniciativas das comunidades tradicionais para enfrentar mudanças climáticas e ambientais, como a produção de uma cartilha sobre uso do fogo e o plantio de espécies medicinais em hortas chamadas de farmácias verdes. Também abordou a gravidade da disseminação da vassoura de bruxa na região. 

“A gente superou a pandemia da covid-19 e entrou na pandemia das roças. A gente perdeu uma variedade gigantesca de espécies de mandioca, incluindo a variedade que usamos para fazer o caxixi [bebida ritualística]. É uma situação muito triste porque além de ser a nossa principal base alimentar, a farinha era também a principal fonte de geração de renda para as famílias”, contou Renata.  

Renata Lod afirmou que contaminação de roças de mandioca ameaça segurança alimentar, renda e cultura das populações indígenas. Foto: Josué Damacena

Promovendo a troca de experiências entre diferentes regiões de atuação do projeto Mosaic, cientistas do Centro de Conservação Africano (ACC), que coordenam as atividades da pesquisa na fronteira do Quênia com a Tanzânia, apresentaram ações de conservação e monitoramento ambiental realizadas em cooperação com comunidades tradicionais Massai no Parque Nacional Amboseli. 

“É muito interessante desenvolver essa pesquisa em diferentes partes do mundo e observar como as comunidades interagem com o meio ambiente, respondem a eventos extremos e usam informações para tomar decisões em nível local. Apesar da diferença nos ecossistemas e da distância, os desafios são semelhantes e parte do que estamos fazendo é conectar os conhecimentos desses diferentes locais”, disse Victor Mose, codirector do ACC e um dos líderes do Mosaic na área de coleta de dados e conhecimentos. 

Victor Mose apontou que histórias contadas pelas comunidades Massai fornecem informações relevantes sobre o território, que não são obtidas apenas com levantamentos de dados. Foto: Josué Damacena

Foram apresentados ainda resultados de atividades participativas realizadas pelo projeto Mosaic na Amazônia ao longo de 2025, que apontaram divergências na forma como Brasil e Guiana Francesa trabalham a vigilância de raiva e leishmanioses e identificaram fatores associados com variações sazonais nos registros de malária e dengue em área indígena Ticuna, na Região do Alto Solimões, na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. As observações foram registradas a partir da elaboração de calendários ecológicos.

"O calendário ecológico é um método que as comunidades tradicionais utilizam para descrever os ciclos do seu dia a dia ao longo de um ano. Para nós, essa ferramenta permite identificar as percepções sobre ambiente, saúde animal e saúde humana e como esses aspectos se relacionam. Assim, conseguimos entender como podemos atuar pra apoiar as comunidades a tomar decisões em tempo real e oportuno", disse José Joaquin Carvajal, pesquisador do Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia).


Projeto vai desenvolver jogos com comunidades locais. Foto: Josué Damacena

Durante o evento, os participantes foram convidados a refletir sobre as relações entre problemas de saúde e alterações ambientais e climáticas por meio de uma brincadeira de bingo. Também conheceram jogos de tabuleiro educativos desenvolvidos por pesquisadoras que integram o Mosaic para abordar conflitos ambientais, dando o primeiro passo na proposta de criar jogos em parceria com as comunidades inseridas no projeto, para abordar questões do seu interesse. 

"Os jogos têm a possibilidade de trazer de forma palpável, como bricadeira, problemáticas socioambientais e de justiça climática reais das comunidades, discutindo soluções", observou Juliana Arguelho, pesquisadora da Universidade de Brasília (UNB), integrante do Mosaic.

"A proposta é usar essa metodologia lúdica para transmitir os resultados da pesquisa para as populações locais. Então vamos juntar conhecimento local com conhecimento científico e desenvolver um jogo sobre uma pergunta que a comunidade vai escolher", explicou Danielle Mitja, pesquisadora do IRD, que também integra o projeto.

Impactos das mudanças climáticas

No Centro de Formação Domingos Santa Rosa, na Terra Indígena Uaçá, ainda no dia 19 de novembro, o encontro dos cientistas com representantes da Associação Uasei dos Povos Indígenas do Oiapoque, que apoia a cadeia de produção do açaí em comunidades indígenas, chamou atenção para impactos de mudanças nos regimes de chuva, incluindo secas prolongadas.

“Com as mudanças climáticas, foi afetada a produção de açaí e de outras árvores frutíferas, que são importantes para o açaí, como ingá. A gente percebeu que o açaí não dá mais o cacho da forma que era. Antes de abrir a espada, para poder produzir os frutos, ela já começa a secar. Também nos açaizais em parte de várzea, a água começou a esquentar por causa das mudanças climáticas e isso acabou matando o açaí”, disse Diese Felicio Batista, da etnia Palikur, representante da Uasei. 

Reunião na sede da Uasei apresentou ações da associação para apoiar produtores indígenas de açaí e abordou queda de produção associada com mudanças climáticas. Foto: Josué Damacena

Os pesquisadores conheceram também o trabalho de Agentes Ambientais Indígenas (Agamin), capacitados na formação intercultural oferecida pelo Instituto Iepé, com duração de quatro anos. Os agentes falaram sobre conservação de espécies, enfrentamento da vassoura de bruxa em roças de mandioca e pesquisas, incluindo o levantamento sobre conhecimentos tradicionais dos ciclos sazonais e percepções de mudanças no clima entre os quatro povos indígenas do Oiapoque, reunido no livro ‘Marcadores do tempo’. 

“Tem muita coisa mudando. A gente observa nos animais, nos insetos, no período da chuva. Antes, junho iniciava o verão e dezembro já iniciava a chuva, e agora não. Dificultou no processo das nossas roças, porque no início de julho a gente começava a derrubar o roçado para no mês de agosto já estar tudo queimado e iniciar o plantio. Mas hoje em dia, a gente vê essa dificuldade, que a gente não consegue medir”, contou a agamin Maria Anika Valente, da etnia Karipuna. 

No dia 21 de novembro, ocorreu a visita aos bairros Independência e Nova Conquista, construídos nos últimos anos a partir de ocupações que derrubaram áreas de mata. Lideranças comunitárias abordaram preocupações com a preservação dos igarapés e os casos de malária, além de dificuldades de acesso a serviços públicos.

Árvores cortadas no bairro Independência. Ocupação em área de mata começou há cerca de dois anos. Foto: Josué Damacena

Os pesquisadores conheceram ainda a Casa da Mulher da Fronteira, que oferece abrigamento para mulheres vítimas de violência doméstica e cursos com foco em geração de renda e prevenção da violência doméstica e sexual. O espaço é mantido pela organização DPAC Fronteira, que atua na cooperação em saúde entre Brasil e Guiana Francesa.

Cerca de 20 pesquisadores do Brasil, Colômbia, França e Quênia participaram das atividades, incluindo representantes da PICTIS/Fiocruz, IOC/Fiocruz, Fiocruz Amazônia, UNB, IRD, UA, ACC e Centro Hospitalar Universitário da Guiana Francesa (CHU). 

O projeto Mosaic é financiado pela União Europeia e coordenado pelo IRD. Com quatro anos de duração, o estudo começou em 2024 e segue até 2027. Saiba mais sobre a missão nas fronteiras amazônicas e etapas anteriores da pesquisa.

Encontro do projeto Mosaic no Oiapoque chamou atenção para problemas que atingem especialmente os povos tradicionais
Por: 
maira
Pesquisadores do projeto Mosaic com agentes ambientais indígenas e representantes da assocação Uasei no Centro de Formação Domingos Santa Rosa. Foto: Josué Damacena

Contaminação ambiental, doenças em plantas, grandes empreendimentos, secas prolongadas, chuvas intensas, acesso à saúde e doenças crônicas. Estes foram alguns dos temas mais citados pelos participantes do encontro promovido pela Fiocruz e instituições científicas da América do Sul, Europa e África para discutir problemas ligados a saúde, meio ambiente e clima, na fonteira do Brasil com a Guiana Francesa. 

Realizado no Oiapoque, nos dias 18 e 19 de novembro, o evento faz parte do projeto internacional ‘Aplicação multilocal da ciência aberta na criação de ambientes saudáveis envolvendo comunidades locais’, mais conhecido como ‘Mosaic’, na sigla em inglês. A iniciativa busca promover a saúde de populações em áreas de fronteira, através da criação de sistemas de informação para apoiar, no nível local, medidas de adaptação e mitigação de mudanças climáticas e ambientais.

Com objetivo de conhecer percepções das pessoas que vivem e atuam na região, os cientistas promoveram um encontro com 25 participantes, entre lideranças indígenas e comunitárias do Oiapoque; profissionais de saúde, saúde indígena, meio ambiente e educação do município, do estado do Amapá e do governo federal; especialistas de organizações não governamentais de saúde e indigenismo, além de representantes da Universidade e da Prefeitura da Guiana Francesa.

Rio Oiapoque e a floresta amazônica no território da Guiana Francesa vistos da cidade de Oiapoque. Foto: Josué Damacena

O evento ocorreu no campus binacional da Universidade Federal do Amapá (Unifap), no dia 18, e no Museu Kuahy, no dia 19. Atividades e jogos foram promovidos para estimular reflexões sobre saúde, clima e meio ambiente. Alguns dos principais desafios do território nestas temáticas foram discutidos em palestras.

Foi o segundo encontro anual com representantes de comunidades e instituições interessadas em colaborar com o projeto na fronteira binacional. De acordo com os pesquisadores, as atividades aprofundaram a compreensão sobre os desafios locais.

"Conseguimos entender melhor algumas questões que essas populações identificam em relação às mudanças climáticas e ambientais. A mudança de sazonalidade, por exemplo, dos períodos de seca e de chuva. São questões que as comunidades observam e que podemos trabalhar junto com elas para trazer outras informações", apontou Paulo Peiter,  pesquisador do IOC/Fiocruz e da PICTIS/Fiocruz, um dos líderes do Mosaic na área de ciência compartilhada com interessados locais.

Em atividade promovida pelos cientistas, participantes do evento relaram preocuapções ligadas ao clima, meio ambiente, saúde e outros aspectos que afetam o bem-viver na fronteira binacional. Foto: Josué Damacena

De acordo com os cientistas, as atividades também deram mais um passo na construção do mapa de organizações que atuam em saúde, meio ambiente e clima na fronteira, uma etapa importante do projeto Mosaic. 

“Esse mapa vai identificar quem são os atores que trabalham com saúde humana, animal e ambiental nestes territórios, como eles interagem com as comunidades tradicionais, que estão no centro do projeto Mosaic, como eles se conectam dentro de cada país e entre os países. É um trabalho que estamos fazendo dos dois lados da fronteira para qualificar as ligações que já existem e aquelas que precisam ser estabelecidas para que o fluxo de informação seja mais fluido e efetivo”, explica Verônica Marchon, pesquisadora do IOC/Fiocruz e da PICTIS/Fiocruz, integrante do projeto Mosaic. 

“Esta deve ser uma ferramenta operacional dentro da pesquisa e, posteriormente, para formuladores de políticas e todos os demais interlocutores. Qualquer pessoa que queira saber como responder a uma questão específica de saúde terá acesso não apenas ao mapa, mas também a fichas informativas sobre cada organização, detalhando os programas de pesquisa e saúde nos quais estão envolvidas e, mais importante, se seu trabalho é transfronteiriço", completa Valerie Morel, professora da Universidade de Artois (UA), na França, e uma das líderes do Mosaic na área de ciência compartilhada com interessados locais. 

Troca de experiências entre fronteiras

Em palestras, foram abordados o estudo da Universidade da Guiana Francesa sobre a doença conhecida como vassoura de bruxa, causada por um fungo que devastou roças de mandioca dos dois lados da fronteira e a investigação do Instituto Iepé que detectou alto nível de mercúrio em fios de cabelo de mulheres amapaenses que vivem próximo a áreas de garimpo. 

Emmanuel Roux, Paulo Peiter e Valérie Morel na abertura do encontro realizado na Unifap. Foto: Josué Damacena

O impacto de grandes empreendimentos realizados no Oiapoque para comunidades indígenas foi discutido a partir da análise sobre o processo de construção da BR-156, que liga a cidade do extremo norte à capital Macapá.  

“Oiapoque é um lugar que durante muito tempo esteve isolado do restante do país por questões estruturais. O trecho da rodovia que resta ser pavimentado é justamente o que atravessa a terra indígena Uaçá. Ao longo dos anos, isso foi sobreposto com questões de diversos outros empreendimentos que colocam pressão no território e impactam principalmente as comunidades tradicionais”, afirmou Ana Paula da Fonte, cientista social da PICTIS/Fiocruz e ponto focal do projeto Mosaic no Oiapoque, citando obras que vão desde a passagem de cabos de fibra ótica por terras indígenas até o começo da perfuração exploratória de poços de petróleo na costa do Amapá. 


Ana Paula da Fonte ressaltou importância da consulta aos povos indígenas para avaliar impactos de grandes empreendimentos. Foto: Josué Damacena

Representando a Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (Amim), Renata Lod, indígena Galibi Kali’na, falou sobre iniciativas das comunidades tradicionais para enfrentar mudanças climáticas e ambientais, como a produção de uma cartilha sobre uso do fogo e o plantio de espécies medicinais em hortas chamadas de farmácias verdes. Também abordou a gravidade da disseminação da vassoura de bruxa na região. 

“A gente superou a pandemia da covid-19 e entrou na pandemia das roças. A gente perdeu uma variedade gigantesca de espécies de mandioca, incluindo a variedade que usamos para fazer o caxixi [bebida ritualística]. É uma situação muito triste porque além de ser a nossa principal base alimentar, a farinha era também a principal fonte de geração de renda para as famílias”, contou Renata.  

Renata Lod afirmou que contaminação de roças de mandioca ameaça segurança alimentar, renda e cultura das populações indígenas. Foto: Josué Damacena

Promovendo a troca de experiências entre diferentes regiões de atuação do projeto Mosaic, cientistas do Centro de Conservação Africano (ACC), que coordenam as atividades da pesquisa na fronteira do Quênia com a Tanzânia, apresentaram ações de conservação e monitoramento ambiental realizadas em cooperação com comunidades tradicionais Massai no Parque Nacional Amboseli. 

“É muito interessante desenvolver essa pesquisa em diferentes partes do mundo e observar como as comunidades interagem com o meio ambiente, respondem a eventos extremos e usam informações para tomar decisões em nível local. Apesar da diferença nos ecossistemas e da distância, os desafios são semelhantes e parte do que estamos fazendo é conectar os conhecimentos desses diferentes locais”, disse Victor Mose, codirector do ACC e um dos líderes do Mosaic na área de coleta de dados e conhecimentos. 

Victor Mose apontou que histórias contadas pelas comunidades Massai fornecem informações relevantes sobre o território, que não são obtidas apenas com levantamentos de dados. Foto: Josué Damacena

Foram apresentados ainda resultados de atividades participativas realizadas pelo projeto Mosaic na Amazônia ao longo de 2025, que apontaram divergências na forma como Brasil e Guiana Francesa trabalham a vigilância de raiva e leishmanioses e identificaram fatores associados com variações sazonais nos registros de malária e dengue em área indígena Ticuna, na Região do Alto Solimões, na fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. As observações foram registradas a partir da elaboração de calendários ecológicos.

"O calendário ecológico é um método que as comunidades tradicionais utilizam para descrever os ciclos do seu dia a dia ao longo de um ano. Para nós, essa ferramenta permite identificar as percepções sobre ambiente, saúde animal e saúde humana e como esses aspectos se relacionam. Assim, conseguimos entender como podemos atuar pra apoiar as comunidades a tomar decisões em tempo real e oportuno", disse José Joaquin Carvajal, pesquisador do Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia).


Projeto vai desenvolver jogos com comunidades locais. Foto: Josué Damacena

Durante o evento, os participantes foram convidados a refletir sobre as relações entre problemas de saúde e alterações ambientais e climáticas por meio de uma brincadeira de bingo. Também conheceram jogos de tabuleiro educativos desenvolvidos por pesquisadoras que integram o Mosaic para abordar conflitos ambientais, dando o primeiro passo na proposta de criar jogos em parceria com as comunidades inseridas no projeto, para abordar questões do seu interesse. 

"Os jogos têm a possibilidade de trazer de forma palpável, como bricadeira, problemáticas socioambientais e de justiça climática reais das comunidades, discutindo soluções", observou Juliana Arguelho, pesquisadora da Universidade de Brasília (UNB), integrante do Mosaic.

"A proposta é usar essa metodologia lúdica para transmitir os resultados da pesquisa para as populações locais. Então vamos juntar conhecimento local com conhecimento científico e desenvolver um jogo sobre uma pergunta que a comunidade vai escolher", explicou Danielle Mitja, pesquisadora do IRD, que também integra o projeto.

Impactos das mudanças climáticas

No Centro de Formação Domingos Santa Rosa, na Terra Indígena Uaçá, ainda no dia 19 de novembro, o encontro dos cientistas com representantes da Associação Uasei dos Povos Indígenas do Oiapoque, que apoia a cadeia de produção do açaí em comunidades indígenas, chamou atenção para impactos de mudanças nos regimes de chuva, incluindo secas prolongadas.

“Com as mudanças climáticas, foi afetada a produção de açaí e de outras árvores frutíferas, que são importantes para o açaí, como ingá. A gente percebeu que o açaí não dá mais o cacho da forma que era. Antes de abrir a espada, para poder produzir os frutos, ela já começa a secar. Também nos açaizais em parte de várzea, a água começou a esquentar por causa das mudanças climáticas e isso acabou matando o açaí”, disse Diese Felicio Batista, da etnia Palikur, representante da Uasei. 

Reunião na sede da Uasei apresentou ações da associação para apoiar produtores indígenas de açaí e abordou queda de produção associada com mudanças climáticas. Foto: Josué Damacena

Os pesquisadores conheceram também o trabalho de Agentes Ambientais Indígenas (Agamin), capacitados na formação intercultural oferecida pelo Instituto Iepé, com duração de quatro anos. Os agentes falaram sobre conservação de espécies, enfrentamento da vassoura de bruxa em roças de mandioca e pesquisas, incluindo o levantamento sobre conhecimentos tradicionais dos ciclos sazonais e percepções de mudanças no clima entre os quatro povos indígenas do Oiapoque, reunido no livro ‘Marcadores do tempo’. 

“Tem muita coisa mudando. A gente observa nos animais, nos insetos, no período da chuva. Antes, junho iniciava o verão e dezembro já iniciava a chuva, e agora não. Dificultou no processo das nossas roças, porque no início de julho a gente começava a derrubar o roçado para no mês de agosto já estar tudo queimado e iniciar o plantio. Mas hoje em dia, a gente vê essa dificuldade, que a gente não consegue medir”, contou a agamin Maria Anika Valente, da etnia Karipuna. 

No dia 21 de novembro, ocorreu a visita aos bairros Independência e Nova Conquista, construídos nos últimos anos a partir de ocupações que derrubaram áreas de mata. Lideranças comunitárias abordaram preocupações com a preservação dos igarapés e os casos de malária, além de dificuldades de acesso a serviços públicos.

Árvores cortadas no bairro Independência. Ocupação em área de mata começou há cerca de dois anos. Foto: Josué Damacena

Os pesquisadores conheceram ainda a Casa da Mulher da Fronteira, que oferece abrigamento para mulheres vítimas de violência doméstica e cursos com foco em geração de renda e prevenção da violência doméstica e sexual. O espaço é mantido pela organização DPAC Fronteira, que atua na cooperação em saúde entre Brasil e Guiana Francesa.

Cerca de 20 pesquisadores do Brasil, Colômbia, França e Quênia participaram das atividades, incluindo representantes da PICTIS/Fiocruz, IOC/Fiocruz, Fiocruz Amazônia, UNB, IRD, UA, ACC e Centro Hospitalar Universitário da Guiana Francesa (CHU). 

O projeto Mosaic é financiado pela União Europeia e coordenado pelo IRD. Com quatro anos de duração, o estudo começou em 2024 e segue até 2027. Saiba mais sobre a missão nas fronteiras amazônicas e etapas anteriores da pesquisa.

Edição: 
Vinicius Ferreira

Permitida a reprodução sem fins lucrativos do texto desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)