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Na tríplice fronteira, debate sobre saúde e eventos extremos com foco no conhecimento indígena

Atividades do projeto Mosaic em Leticia ressaltaram potencial da integração de dados científicos e saberes tradicionais
Por Maíra Menezes12/12/2025 - Atualizado em 05/01/2026
Indígenas receberam pesquisadores para conversa na maloca da comunidade Tiwa. Foto: Josué Damacena

Um encontro com cerca de 60 participantes locais e visitas de campo a duas comunidades indígenas e uma área de preservação ambiental deram passos importantes para o avanço do projeto internacional Mosaic na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

A iniciativa une pesquisadores da Fiocruz e de instituições científicas da América do Sul, Europa e África, com objetivo de promover a saúde de populações em áreas de fronteira, através da criação de sistemas de informação para apoiar comunidades locais em medidas de adaptação e mitigação de mudanças climáticas e ambientais.

Com o título 'Aplicação multilocal da ciência aberta na criação de ambientes saudáveis envolvendo comunidades locais’, a iniciativa é mais conhecida como Mosaic, em referência à sigla em inglês.

Marcando o segundo ano da pesquisa na tríplice fronteira, os cientistas promoveram um encontro na sede Amazônia da Universidade Nacional da Colômbia (Unal), em Leticia, de 24 a 26 de novembro. O evento reuniu representantes de povos indígenas, universidades, organizações não governamentais e órgãos públicos de saúde, saúde indígena, meio ambiente e defesa civil de diferentes esferas de governo, entre brasileiros e colombianos.

Evento reuniu profissionais de diversos órgãos públicos, universidades e ONGs do Brasil e da Colômbia, além de representantes de comunidades. Foto: Josué Damacena

Com diversas atividades participativas e palestras, o evento contribuiu para analisar os desafios da fronteira em saúde, clima e meio ambiente, na perspectiva dos atores locais, e chamou atenção para a importância de integrar conhecimentos científicos e tradicionais em pesquisas e iniciativas ligadas a estes temas, o que é uma das propostas do projeto Mosaic.

"O encontro anual que reúne os representantes de instituições dos diferentes países interessados em colaborar com a pesquisa é importante para desenvolvermos um trabalho transfronteiriço realmente sólido, que permeneça depois do projeto. Este ano, as atividades foram muito interessantes pois tivemos ampla participação e pudemos analisar fortalezas e ameaças da pesquisa", observou Martha Mutis, pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e da Plataforma Internacional de Ciência Tecnologia e Inovação em Saúde (PICTIS/Fiocruz), uma das líderes do Mosaic na área de disseminação e aplicação de resultados. 

"Nessa etapa do projeto, temos objetivo de identificar questões específicas sobre as quais podemos trabalhar junto com os atores locais, inclusive as comunidades tradicionais, para produzir indicadores realmente úteis. A partir das questões de interesse, vamos identificar quais são os dados necessários e a melhor forma de disseminar estas informações para os diferentes atores interessados", comentou Emmanuel Roux, pesquisador do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), da França, e coordenador geral do Mosaic.

Em oficina, participantes do evento produziram calendário ecológico com foco em fatores ambientais, climáticos e culturais sazonais relacionados com a transmissão da dengue. Foto: Josué Damacena

Eventos extremos de secas e inundações

Questões ligadas a doenças transmitidas por vetores, doenças respiratórias, saúde pública, desmatamento, secas prolongadas, enchentes, tratamento e distribuição de água, fluxos migratórios e segurança pública foram as mais citadas pelos participantes do evento entre os problemas que afetam o bem-viver na região. 

Em oficinas, os participantes do encontro foram convidados a analisar mapas sobre variações sazonais e modificações progressivas na paisagem da tríplice fronteira; elaborar calendários ecológicos sobre eventos climáticos extremos, crises sanitárias e dinâmicas de transmissão de doenças infecciosas, além de avaliar a vigilância em saúde única na região. Os impactos de secas e enchentes no deslocamento da população, acesso à saúde, exposição a agravos e segurança alimentar foram alguns itens apontados. 

Fatores que influenciam na exposição, vulnerabilidade, capacidade de lidar e estratégias de adaptação para dengue e malária foram apontados pelos participantes em oficina. Foto: Josué Damacena

Dois paineis de palestras abordaram estudos científicos e iniciativas de vigilância em saúde com participação de comunidades ou lideradas por pesquisadores indígenas nos três países da fronteira.

Entre as ações foi detalhada a estratégia de vigilância em saúde de base comunitária do Departamento do Amazonas, na Colômbia, que conta com voluntários indígenas capacitados para detectar eventos relevantes em saúde e prevenir surtos. 

“Em nosso departamento, mais de 80% são áreas indígenas. Eles conhecem seus territórios e são nossos principais aliados na vigilância. É benéfico o projeto Mosaic trabalhar em parceria com estas comunidades porque elas têm um conceito muito claro de que tudo está relacionado. Se há algo está errado na natureza, as pessoas adoecem", apontou Lizeth Sanchéz, da secretaria de Saúde do Amazonas colombiano. 

Estudo com base em calendários ecológicos chamou atenção para visão integral indígena sobre ritmos da vida, clima e doenças. Foto: Josué Damacena

Da Colômbia, foram destacados também dois estudos da Unal, contemplando monitoramento participativo de rios e peixes e calendários ecológicos indígenas.

"Analisamos sete calendários indígenas e informações do sistema de saúde pública e observamos a sobreposição dos dados. Isso significa que eles são pessoas muito observadoras, conhecedoras do seu ambiente. Definitivamente, temos que ter em consideração o seu conhecimento para planejar medidas de prevenção e controle de doenças nessa região", declarou Nubia Matta, pesquisadora da Unal e integrante do Mosaic.

Do Peru, foi aprensentada uma pesquisa participativa sobre malária e mobilidade de populações da Amazônia, liderada pela Universidade de Buffalo, dos Estados Unidos. 

Do Brasil, foram contemplados um estudo da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) sobre percepções de impactos das mudanças climáticas entre indígenas e pesquisas do Programa de Pós-Graduação em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (PPGVIDA), da Fiocruz Amazônia, com destaque para um estudo sobre práticas e saberes de parteiras indígenas, além dos projetos desenvolvidos pela primeira turma de sanitaristas indígenas do curso. Também foi apresentada a plataforma aberta para notificações de ocorrências relacionadas à saúde silvestre SSIS-Geo, desenvolvida pela Fiocruz. 

Encontro do projeto Mosaic promoveu troca de experiências entre fronteiras da Amazônia e da África. Foto: Josué Damacena

Ampliando a troca de experiências, foram discutidas atividades de conservação desenvolvidas pelo Centro de Conservação Africano (ACC), no Quênia, com participação de mulheres do povo tradicional Massai, no âmbito do projeto Mosaic.

"Buscamos garantir que o conhecimento gerado na prática, os conhecimentos indígenas que a comunidade possui sobre como reagir a eventos climáticos extremos, como lidar com secas ou inundações, sua compreensão da paisagem, das plantas, dos animais sejam incorporados ao conhecimento acadêmico, que também estamos produzindo com imagens de satélite e pesquisas de campo", apontou Lucy Waruingi, diretora executiva do ACC e uma das líderes do Mosaic na área de integração de dados e conhecimentos.

Contribuição para saúde e conservação 

As visitas às comunidades indígenas Tiwa e Mocagua e ao Parque Nacional Natural Amacayacu (PNN Amacayacu), nos dias 26 a 28 de novembro, discutiram caminhos para parcerias.  

Em Tiwa, o projeto Mosaic poderá contribuir no processo de construção de sistemas de informação para o Sistema Indígena de Saúde Próprio e Intercultural (SISPI), formalizado este ano na Colômbia. A iniciativa prevê um modelo de atenção especial sob governança das próprias comunidades, considerando sua cosmovisão e medicina tradicional e operando em articulação com a saúde pública. 

Já em Mocagua, os cientistas esperam cooperar com ações de monitoramento ambiental que são realizadas pela comunidade em parceria com o PNN Amacayacu, ampliando o acesso a informações relacionadas às mudanças climáticas e ambientais. 

Ecoturismo se tornou opção para geração de renda sustentável em Mocagua. Foto: Maíra Menezes

“A cooperação com essas comunidades é fruto de mais de dez anos de atuação da Fiocruz nessa região e da parceria consolidada com a Unal. Tiwa e Mocagua são comunidades estratégicas porque estão inseridas em dois projetos importantes de saúde e conservação. Tiwa é uma das comunidades escolhidas como modelo para implementar o SISPI nas comunidades amazônicas. Já a comunidade de Mocagua tem mais de 30 anos trabalhando na conservação da biodiversidade, em parceria com parque nacional, a partir da cosmovisão holística de saúde única, que para nós é um conceito novo, mas para eles é ancestral", explica José Joaquin Carvajal Cortes, pesquisador do Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia) e da PICTIS/Fiocruz, integrante do projeto Mosaic.

A comunidade Tiwa fica a cerca de 6 km de Leticia. Na maloca da comunidade, espaço tradicional de reunião, considerado sagrado, os pesquisadores se reuniram em roda para conversar com as lideranças locais. 

Os indígenas recordaram a história da comunidade, formada por povos de nove etnias deslocados de seus territórios principalmente por causa da violência. Superando divergências, eles obtiveram o reconhecimento do seu território e estabeleceram um cabildo, sistema próprio de governo das áreas indígenas da Colômbia. 

Reunião realizada ao entardecer foi seguida por refeição oferecida pelos indígenas aos pesquisadores em Tiwa. Foto: Josué Damacena

A conversa abordou a diferença entre o conceito de saúde ocidental, focado no bem-estar humano, e o conceito indígena de “cuidado da vida”, que inclui as pessoas, os animais e a natureza, compreendidos como seres integrados física e espiritualmente. 

Juan Castro, abuelo do povo Murui e integrante do cabildo Tiwa, destacou a perspectiva de troca intercultural na construção de sistemas de informação em parceria com o projeto Mosaic.  

“Necessitamos comunicar informação para cuidar desse território, deste planeta, cuidar da vida. Para isso, temos que nos entender. Isso é o que vemos de potencial no projeto Mosaic, trocar informações com pessoas de vários países e criar um conhecimento que vai estar disperso em dois continentes, na África e na América”, disse ele. 

Já a comunidade Mocagua e o PNN Amacayacu ficam às margens do Rio Amazonas. O trajeto de barco partindo de Leticia leva cerca de 1 hora e 30 minutos. Uma vez que as áreas da terra indígena e do parque são sobrepostas, existem acordos de cooperação entre o cabildo da comunidade e a gestão da unidade de conservação ambiental. 

Apresentação na sede do PNN Amacayacu ressaltou cooperação com comunidades indígenas em ações de conservação e monitoramento. Foto: Josué Damacena

Na sede do parque, os cientistas conheceram projetos de monitoramento ambiental e restauração biocultural realizados em parceria com as comunidades locais. No alvo das ações estão a preservação do primata Lagothrix lagotricha, conhecido como macaco-barrigudo; a avaliação de contaminação em peixes e a análise das chagras (roças cultivadas em sistema tradicional indígena); além da recuperação da diversidade de espécies vegetais e de relações culturais tradicionais. 

Os profissionais apontaram impactos das mudanças climáticas na região e o interesse na parceria com o projeto Mosaic para avançar neste monitoramento. 

“Nos últimos anos, tivemos secas extremas, que dificultaram o cultivo das chagras, porque se o Rio Amazonas não transborda, a terra perde fertilidade. Por outro lado, em 2012 e 2015, o rio subiu um metro acima do seu nível normal, danificando a infraestrutura e causando problemas para o solo porque o esgoto se misturou à água. Estamos registrando esses dados e fazendo análises, mas ainda há muita incerteza em relação a essas mudanças, e essa é uma das nossas prioridades na parceria com o projeto Mosaic”, afirmou Salomé Aramburo, engenheira ambiental do PNN Amacayacu, que destacou também a cooperação Sul-Sul na pesquisa, pela troca de experiências com o Parque Nacional de Amboseli, no Quênia. 

Estratégias de pesquisa e monitoramento aplicadas no Parque Nacional de Amboseli, no Quênia, foram apresentadas aos profissionais do PNN Amacayacu. Foto: Josué Damacena

Reunindo quase mil habitantes de cinco etnias, a comunidade de Mocagua mantém um programa de ecoturismo, com apoio da gestão do parque nacional. A atividade se tornou uma das principais fontes de renda da população, ao lado do artesanato, pesca e cultivo das chagras, contribuindo para reduzir práticas que degradam o meio ambiente como caça e extração de madeira.  

Os pesquisadores se reuniram com um médico tradicional de Mocagua. Também acompanharam um grupo que realiza observação de aves em passeios turísticos e está iniciando o monitoramento de espécies ameaçadas. 

“Para nós, essa relação com os animais e com a terra é de vital importância, porque, antes de tudo, é o alimento. Também os remédios que nós usamos. No lado espiritual, temos muitos relacionamentos. É por isso que sempre dizemos: o indígena sem terra não é indígena, porque ali está tudo. Se não cuidamos, vai acabar e o que acontece? Teremos problemas de saúde", comentou Alberto Parente, da etnia Ticuna, um dos primeiros observadores de pássaros da comunidade.

Sobre o projeto

O projeto Mosaic conta com financiamento da União Europeia para o período de 2024 a 2027. A iniciativa une 15 instituições científicas de sete países.

Cerca de 20 pesquisadores participaram da missão na tríplice fronteira, incluindo especialistas do IOC/Fiocruz, Fiocruz Amazônia, PICTIS/Fiocruz, Unal, IRD, ACC e Universidade de Brasília (UNB).

As atividades na região ocorreram também no âmbito do projeto de pesquisa Fefaccion, financiado pela embaixada da França no Brasil. Saiba mais sobre a missão da pesquisa nas fronteiras amazônicas e etapas anteriores.

Atividades do projeto Mosaic em Leticia ressaltaram potencial da integração de dados científicos e saberes tradicionais
Por: 
maira
Indígenas receberam pesquisadores para conversa na maloca da comunidade Tiwa. Foto: Josué Damacena

Um encontro com cerca de 60 participantes locais e visitas de campo a duas comunidades indígenas e uma área de preservação ambiental deram passos importantes para o avanço do projeto internacional Mosaic na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

A iniciativa une pesquisadores da Fiocruz e de instituições científicas da América do Sul, Europa e África, com objetivo de promover a saúde de populações em áreas de fronteira, através da criação de sistemas de informação para apoiar comunidades locais em medidas de adaptação e mitigação de mudanças climáticas e ambientais.

Com o título 'Aplicação multilocal da ciência aberta na criação de ambientes saudáveis envolvendo comunidades locais’, a iniciativa é mais conhecida como Mosaic, em referência à sigla em inglês.

Marcando o segundo ano da pesquisa na tríplice fronteira, os cientistas promoveram um encontro na sede Amazônia da Universidade Nacional da Colômbia (Unal), em Leticia, de 24 a 26 de novembro. O evento reuniu representantes de povos indígenas, universidades, organizações não governamentais e órgãos públicos de saúde, saúde indígena, meio ambiente e defesa civil de diferentes esferas de governo, entre brasileiros e colombianos.

Evento reuniu profissionais de diversos órgãos públicos, universidades e ONGs do Brasil e da Colômbia, além de representantes de comunidades. Foto: Josué Damacena

Com diversas atividades participativas e palestras, o evento contribuiu para analisar os desafios da fronteira em saúde, clima e meio ambiente, na perspectiva dos atores locais, e chamou atenção para a importância de integrar conhecimentos científicos e tradicionais em pesquisas e iniciativas ligadas a estes temas, o que é uma das propostas do projeto Mosaic.

"O encontro anual que reúne os representantes de instituições dos diferentes países interessados em colaborar com a pesquisa é importante para desenvolvermos um trabalho transfronteiriço realmente sólido, que permeneça depois do projeto. Este ano, as atividades foram muito interessantes pois tivemos ampla participação e pudemos analisar fortalezas e ameaças da pesquisa", observou Martha Mutis, pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e da Plataforma Internacional de Ciência Tecnologia e Inovação em Saúde (PICTIS/Fiocruz), uma das líderes do Mosaic na área de disseminação e aplicação de resultados. 

"Nessa etapa do projeto, temos objetivo de identificar questões específicas sobre as quais podemos trabalhar junto com os atores locais, inclusive as comunidades tradicionais, para produzir indicadores realmente úteis. A partir das questões de interesse, vamos identificar quais são os dados necessários e a melhor forma de disseminar estas informações para os diferentes atores interessados", comentou Emmanuel Roux, pesquisador do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), da França, e coordenador geral do Mosaic.

Em oficina, participantes do evento produziram calendário ecológico com foco em fatores ambientais, climáticos e culturais sazonais relacionados com a transmissão da dengue. Foto: Josué Damacena

Eventos extremos de secas e inundações

Questões ligadas a doenças transmitidas por vetores, doenças respiratórias, saúde pública, desmatamento, secas prolongadas, enchentes, tratamento e distribuição de água, fluxos migratórios e segurança pública foram as mais citadas pelos participantes do evento entre os problemas que afetam o bem-viver na região. 

Em oficinas, os participantes do encontro foram convidados a analisar mapas sobre variações sazonais e modificações progressivas na paisagem da tríplice fronteira; elaborar calendários ecológicos sobre eventos climáticos extremos, crises sanitárias e dinâmicas de transmissão de doenças infecciosas, além de avaliar a vigilância em saúde única na região. Os impactos de secas e enchentes no deslocamento da população, acesso à saúde, exposição a agravos e segurança alimentar foram alguns itens apontados. 

Fatores que influenciam na exposição, vulnerabilidade, capacidade de lidar e estratégias de adaptação para dengue e malária foram apontados pelos participantes em oficina. Foto: Josué Damacena

Dois paineis de palestras abordaram estudos científicos e iniciativas de vigilância em saúde com participação de comunidades ou lideradas por pesquisadores indígenas nos três países da fronteira.

Entre as ações foi detalhada a estratégia de vigilância em saúde de base comunitária do Departamento do Amazonas, na Colômbia, que conta com voluntários indígenas capacitados para detectar eventos relevantes em saúde e prevenir surtos. 

“Em nosso departamento, mais de 80% são áreas indígenas. Eles conhecem seus territórios e são nossos principais aliados na vigilância. É benéfico o projeto Mosaic trabalhar em parceria com estas comunidades porque elas têm um conceito muito claro de que tudo está relacionado. Se há algo está errado na natureza, as pessoas adoecem", apontou Lizeth Sanchéz, da secretaria de Saúde do Amazonas colombiano. 

Estudo com base em calendários ecológicos chamou atenção para visão integral indígena sobre ritmos da vida, clima e doenças. Foto: Josué Damacena

Da Colômbia, foram destacados também dois estudos da Unal, contemplando monitoramento participativo de rios e peixes e calendários ecológicos indígenas.

"Analisamos sete calendários indígenas e informações do sistema de saúde pública e observamos a sobreposição dos dados. Isso significa que eles são pessoas muito observadoras, conhecedoras do seu ambiente. Definitivamente, temos que ter em consideração o seu conhecimento para planejar medidas de prevenção e controle de doenças nessa região", declarou Nubia Matta, pesquisadora da Unal e integrante do Mosaic.

Do Peru, foi aprensentada uma pesquisa participativa sobre malária e mobilidade de populações da Amazônia, liderada pela Universidade de Buffalo, dos Estados Unidos. 

Do Brasil, foram contemplados um estudo da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) sobre percepções de impactos das mudanças climáticas entre indígenas e pesquisas do Programa de Pós-Graduação em Condições de Vida e Situações de Saúde na Amazônia (PPGVIDA), da Fiocruz Amazônia, com destaque para um estudo sobre práticas e saberes de parteiras indígenas, além dos projetos desenvolvidos pela primeira turma de sanitaristas indígenas do curso. Também foi apresentada a plataforma aberta para notificações de ocorrências relacionadas à saúde silvestre SSIS-Geo, desenvolvida pela Fiocruz. 

Encontro do projeto Mosaic promoveu troca de experiências entre fronteiras da Amazônia e da África. Foto: Josué Damacena

Ampliando a troca de experiências, foram discutidas atividades de conservação desenvolvidas pelo Centro de Conservação Africano (ACC), no Quênia, com participação de mulheres do povo tradicional Massai, no âmbito do projeto Mosaic.

"Buscamos garantir que o conhecimento gerado na prática, os conhecimentos indígenas que a comunidade possui sobre como reagir a eventos climáticos extremos, como lidar com secas ou inundações, sua compreensão da paisagem, das plantas, dos animais sejam incorporados ao conhecimento acadêmico, que também estamos produzindo com imagens de satélite e pesquisas de campo", apontou Lucy Waruingi, diretora executiva do ACC e uma das líderes do Mosaic na área de integração de dados e conhecimentos.

Contribuição para saúde e conservação 

As visitas às comunidades indígenas Tiwa e Mocagua e ao Parque Nacional Natural Amacayacu (PNN Amacayacu), nos dias 26 a 28 de novembro, discutiram caminhos para parcerias.  

Em Tiwa, o projeto Mosaic poderá contribuir no processo de construção de sistemas de informação para o Sistema Indígena de Saúde Próprio e Intercultural (SISPI), formalizado este ano na Colômbia. A iniciativa prevê um modelo de atenção especial sob governança das próprias comunidades, considerando sua cosmovisão e medicina tradicional e operando em articulação com a saúde pública. 

Já em Mocagua, os cientistas esperam cooperar com ações de monitoramento ambiental que são realizadas pela comunidade em parceria com o PNN Amacayacu, ampliando o acesso a informações relacionadas às mudanças climáticas e ambientais. 

Ecoturismo se tornou opção para geração de renda sustentável em Mocagua. Foto: Maíra Menezes

“A cooperação com essas comunidades é fruto de mais de dez anos de atuação da Fiocruz nessa região e da parceria consolidada com a Unal. Tiwa e Mocagua são comunidades estratégicas porque estão inseridas em dois projetos importantes de saúde e conservação. Tiwa é uma das comunidades escolhidas como modelo para implementar o SISPI nas comunidades amazônicas. Já a comunidade de Mocagua tem mais de 30 anos trabalhando na conservação da biodiversidade, em parceria com parque nacional, a partir da cosmovisão holística de saúde única, que para nós é um conceito novo, mas para eles é ancestral", explica José Joaquin Carvajal Cortes, pesquisador do Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia) e da PICTIS/Fiocruz, integrante do projeto Mosaic.

A comunidade Tiwa fica a cerca de 6 km de Leticia. Na maloca da comunidade, espaço tradicional de reunião, considerado sagrado, os pesquisadores se reuniram em roda para conversar com as lideranças locais. 

Os indígenas recordaram a história da comunidade, formada por povos de nove etnias deslocados de seus territórios principalmente por causa da violência. Superando divergências, eles obtiveram o reconhecimento do seu território e estabeleceram um cabildo, sistema próprio de governo das áreas indígenas da Colômbia. 

Reunião realizada ao entardecer foi seguida por refeição oferecida pelos indígenas aos pesquisadores em Tiwa. Foto: Josué Damacena

A conversa abordou a diferença entre o conceito de saúde ocidental, focado no bem-estar humano, e o conceito indígena de “cuidado da vida”, que inclui as pessoas, os animais e a natureza, compreendidos como seres integrados física e espiritualmente. 

Juan Castro, abuelo do povo Murui e integrante do cabildo Tiwa, destacou a perspectiva de troca intercultural na construção de sistemas de informação em parceria com o projeto Mosaic.  

“Necessitamos comunicar informação para cuidar desse território, deste planeta, cuidar da vida. Para isso, temos que nos entender. Isso é o que vemos de potencial no projeto Mosaic, trocar informações com pessoas de vários países e criar um conhecimento que vai estar disperso em dois continentes, na África e na América”, disse ele. 

Já a comunidade Mocagua e o PNN Amacayacu ficam às margens do Rio Amazonas. O trajeto de barco partindo de Leticia leva cerca de 1 hora e 30 minutos. Uma vez que as áreas da terra indígena e do parque são sobrepostas, existem acordos de cooperação entre o cabildo da comunidade e a gestão da unidade de conservação ambiental. 

Apresentação na sede do PNN Amacayacu ressaltou cooperação com comunidades indígenas em ações de conservação e monitoramento. Foto: Josué Damacena

Na sede do parque, os cientistas conheceram projetos de monitoramento ambiental e restauração biocultural realizados em parceria com as comunidades locais. No alvo das ações estão a preservação do primata Lagothrix lagotricha, conhecido como macaco-barrigudo; a avaliação de contaminação em peixes e a análise das chagras (roças cultivadas em sistema tradicional indígena); além da recuperação da diversidade de espécies vegetais e de relações culturais tradicionais. 

Os profissionais apontaram impactos das mudanças climáticas na região e o interesse na parceria com o projeto Mosaic para avançar neste monitoramento. 

“Nos últimos anos, tivemos secas extremas, que dificultaram o cultivo das chagras, porque se o Rio Amazonas não transborda, a terra perde fertilidade. Por outro lado, em 2012 e 2015, o rio subiu um metro acima do seu nível normal, danificando a infraestrutura e causando problemas para o solo porque o esgoto se misturou à água. Estamos registrando esses dados e fazendo análises, mas ainda há muita incerteza em relação a essas mudanças, e essa é uma das nossas prioridades na parceria com o projeto Mosaic”, afirmou Salomé Aramburo, engenheira ambiental do PNN Amacayacu, que destacou também a cooperação Sul-Sul na pesquisa, pela troca de experiências com o Parque Nacional de Amboseli, no Quênia. 

Estratégias de pesquisa e monitoramento aplicadas no Parque Nacional de Amboseli, no Quênia, foram apresentadas aos profissionais do PNN Amacayacu. Foto: Josué Damacena

Reunindo quase mil habitantes de cinco etnias, a comunidade de Mocagua mantém um programa de ecoturismo, com apoio da gestão do parque nacional. A atividade se tornou uma das principais fontes de renda da população, ao lado do artesanato, pesca e cultivo das chagras, contribuindo para reduzir práticas que degradam o meio ambiente como caça e extração de madeira.  

Os pesquisadores se reuniram com um médico tradicional de Mocagua. Também acompanharam um grupo que realiza observação de aves em passeios turísticos e está iniciando o monitoramento de espécies ameaçadas. 

“Para nós, essa relação com os animais e com a terra é de vital importância, porque, antes de tudo, é o alimento. Também os remédios que nós usamos. No lado espiritual, temos muitos relacionamentos. É por isso que sempre dizemos: o indígena sem terra não é indígena, porque ali está tudo. Se não cuidamos, vai acabar e o que acontece? Teremos problemas de saúde", comentou Alberto Parente, da etnia Ticuna, um dos primeiros observadores de pássaros da comunidade.

Sobre o projeto

O projeto Mosaic conta com financiamento da União Europeia para o período de 2024 a 2027. A iniciativa une 15 instituições científicas de sete países.

Cerca de 20 pesquisadores participaram da missão na tríplice fronteira, incluindo especialistas do IOC/Fiocruz, Fiocruz Amazônia, PICTIS/Fiocruz, Unal, IRD, ACC e Universidade de Brasília (UNB).

As atividades na região ocorreram também no âmbito do projeto de pesquisa Fefaccion, financiado pela embaixada da França no Brasil. Saiba mais sobre a missão da pesquisa nas fronteiras amazônicas e etapas anteriores.

Edição: 
Vinicius Ferreira

Permitida a reprodução sem fins lucrativos do texto desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)