Nas primeiras décadas do século XX, era de praxe presenciar o médico Antonio Gonçalves Peryassú pelas regiões de Manguinhos e da Quinta da Boa Vista, ambas na cidade do Rio de Janeiro, para a realização de pesquisas científicas e trabalhos em saúde pública. Um século depois, seu legado conduziu três pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) a compartilharem do mesmo destino.
Entre 2011 e 2018, geralmente uma vez por semana e em duplas, os cientistas Teresa Fernandes, Monique Motta e Ricardo Lourenço deixavam suas bancadas e projetos no Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do IOC, na sede da Fiocruz, em Manguinhos, para atuar no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista, antiga residência da Família Real Portuguesa. O trabalho, uma parceria celebrada entre as duas instituições seculares, consistia em analisar e inventariar centenas de amostras da histórica Coleção de Mosquitos de Peryassú.
Perto da conclusão da iniciativa, em setembro de 2018, o imponente museu foi acometido por um incêndio, levando à perda irreparável de quase todo o seu acervo, incluindo o material colecionado e identificado por Peryassú. Com o desaparecimento da coleção, o levantamento proveniente desse material ganhou uma importância ainda maior por ser, agora, o registro mais completo do que um dia foi essa coleção científica. O documento está disponível no site do Museu Nacional e, mais recentemente no ARCA - Repositório da Fiocruz, de forma aberta, para futuros estudos.
Em alusão à Semana Nacional dos Museus, comemorada de 17 a 23 de maio, pesquisadores do IOC relembram, a seguir, os anos de expedições em busca da preservação da Ciência.
O conhecimento acumulado na área de entomologia pelo Instituto Oswaldo Cruz ao longo de sua história possibilitou uma análise bastante detalhada dos mosquitos da Coleção Peryassú. “Por sermos referência em taxonomia de mosquitos vetores de arboviroses, a equipe do Museu Nacional procurou nosso Laboratório para a realização deste importante levantamento, reafirmando o laço histórico de troca de conhecimento entre as instituições”, afirmou Ricardo Lourenço que, no período da iniciativa, estava à frente do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários.
O pesquisador lembra que o primeiro artigo científico publicado pelo Instituto, em 1901, foi a descrição de uma espécie nova, o mosquito Anopheles lutzi por Oswaldo Cruz. “O primeiro trabalho de toda a história da Instituto foi em taxonomia de um mosquito. Essa é uma expertise que foi desenvolvida durante toda a história da instituição, por mais de 100 anos”, destacou.
As amostras da Coleção Peryassú foram descritas e catalogadas, apontando dados fundamentais como localização e data de coleta, além de sexo, atualização da nomenclatura, classificação e dados da biologia. “Analisamos meticulosamente o conteúdo de todos os tubos, investigando cada mínimo detalhe dos espécimes, com atenção aos rótulos que estavam escritos com a grafia em vigor do século passado”, relatou Teresa Fernandes, atual chefe do Laboratório. “Por ser uma coleção antiga, foi um trabalho bastante delicado e desafiador. Alguns espécimes não estavam completos, o que dificultou, em alguns momentos, a confirmação da identificação taxonômica feita por Peryassú”, acrescentou.

O inventário colocou em evidência a grande valia científica da Coleção Peryassú que contava com uma diversidade de espécies de mosquitos oriundas das mais distintas áreas geográficas do Brasil. Ao todo, eram 62 espécies, pertencentes a 18 gêneros e 24 subgêneros. “Essa Coleção tinha um valor singular. Com o crescimento imobiliário e a destruição da flora de algumas regiões, algumas espécies podem não existir mais nos locais em que foram coletadas originalmente. Por exemplo, havia na coleção mosquitos silvestres que se criam em brejos coletados em plena rua Farani, no bairro de Botafogo [RJ]. Assim, o inventário se tornou um documento histórico de uma fauna que um dia foi prevalente”, enfatizou Ricardo Lourenço.
Entre as espécies, estava o tipo do mosquito Anopheles oswaldoi, encontrado no Vale do Rio Doce (ES) e descrito por Peryassú em homenagem a Oswaldo Cruz, com quem trabalhou na campanha contra a febre amarela urbana no Rio de Janeiro na primeira década do século XX. “O tipo é o exemplar usado para descrever pela primeira vez uma espécie. Infelizmente, com o incêndio no Museu, houve o desaparecimento do espécime. Agora, terá de ser criado um neótipo, ou seja, algum especialista que for ao Vale do Rio Doce e encontrar um outro exemplar que se encaixe exatamente na descrição de Peryassú poderá registrar o achado”, explicou Lourenço.
A Coleção possuía algumas curiosidades científicas, que foram documentadas no levantamento. Em anotações nos rótulos dos fracos, Peryassú retratou alguns dos pensamentos da época. “A etiqueta de alguns Culex quinquefasciatus, o pernilongo comum, por exemplo, tinha uma observação que incluía a possível transmissão da dengue pelo mosquito. Hoje em dia sabemos que a dengue é transmitida pelo Aedes aegypti”, contou Teresa.
O projeto foi coordenado por Sonia Maria Lopes Fraga e Maria Conceição Messias, do Departamento de Entomologia do Museu Nacional.
A interrupção do trabalho de sete anos devido ao incêndio foi marcante para os pesquisadores. “Estávamos analisando a última gaveta e concluindo o inventário quando o Museu foi tomado pelo fogo”, lembrou Ricardo. “É difícil demais pensar que estávamos lá na sexta-feira [31 de agosto de 2018] à tarde e que dois dias depois esse local já não existia mais. É uma tristeza muito grande saber que não há a possibilidade de recuperar as peças que ali estavam”, lamentou Teresa.
Além da descoberta da riqueza científica e histórica da Coleção Peryassú, os pesquisadores ressaltam também as memórias afetivas do período em que participaram do inventário. “O contato com esses exemplares foi uma experiência emocionante em diversos níveis. Com os espécimes coletados na Quinta da Boa Vista, era como se tivéssemos viajado no tempo”, contou Teresa.
O pesquisador Ricardo Lourenço lembrou também da coincidência de catalogar um tubo com um mosquito que completava, no dia em que estava sendo inventariado, cem anos de coletado na região da Quinta. “Estávamos lá, no mesmo local em que ele foi coletado, cem anos depois. Ficamos contentes demais por pensar que Peryassú, que tivera a sua formação em taxonomia e biologia de mosquitos em Manguinhos, estivera ali contribuindo com a ciência brasileira”, disse o ex-chefe do Laboratório.
Com essa experiência, os pesquisadores reforçaram a importância da cooperação científica interinstitucional. “Uma das principais características da Fiocruz, desde a sua fundação, é a realização de parcerias com diferentes instituições. Isso é de grande valia por possibilitar a reunião de expertises e ampliar o leque de conhecimento. É um privilégio poder unir experiência, material e infraestrutura para o avanço do conhecimento”, salientou Tereza.
“É sempre uma honra trabalhar com o Museu Nacional. Obviamente, o que foi perdido é único e irrecuperável, porém, se a instituição decidir recomeçar a repor suas coleções, o Instituto Oswaldo Cruz, com a sua expertise, estará de braços abertos a colaborar”, garantiu Ricardo.
Nas primeiras décadas do século XX, era de praxe presenciar o médico Antonio Gonçalves Peryassú pelas regiões de Manguinhos e da Quinta da Boa Vista, ambas na cidade do Rio de Janeiro, para a realização de pesquisas científicas e trabalhos em saúde pública. Um século depois, seu legado conduziu três pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) a compartilharem do mesmo destino.
Entre 2011 e 2018, geralmente uma vez por semana e em duplas, os cientistas Teresa Fernandes, Monique Motta e Ricardo Lourenço deixavam suas bancadas e projetos no Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do IOC, na sede da Fiocruz, em Manguinhos, para atuar no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista, antiga residência da Família Real Portuguesa. O trabalho, uma parceria celebrada entre as duas instituições seculares, consistia em analisar e inventariar centenas de amostras da histórica Coleção de Mosquitos de Peryassú.
Perto da conclusão da iniciativa, em setembro de 2018, o imponente museu foi acometido por um incêndio, levando à perda irreparável de quase todo o seu acervo, incluindo o material colecionado e identificado por Peryassú. Com o desaparecimento da coleção, o levantamento proveniente desse material ganhou uma importância ainda maior por ser, agora, o registro mais completo do que um dia foi essa coleção científica. O documento está disponível no site do Museu Nacional e, mais recentemente no ARCA - Repositório da Fiocruz, de forma aberta, para futuros estudos.
Em alusão à Semana Nacional dos Museus, comemorada de 17 a 23 de maio, pesquisadores do IOC relembram, a seguir, os anos de expedições em busca da preservação da Ciência.
O conhecimento acumulado na área de entomologia pelo Instituto Oswaldo Cruz ao longo de sua história possibilitou uma análise bastante detalhada dos mosquitos da Coleção Peryassú. “Por sermos referência em taxonomia de mosquitos vetores de arboviroses, a equipe do Museu Nacional procurou nosso Laboratório para a realização deste importante levantamento, reafirmando o laço histórico de troca de conhecimento entre as instituições”, afirmou Ricardo Lourenço que, no período da iniciativa, estava à frente do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários.
O pesquisador lembra que o primeiro artigo científico publicado pelo Instituto, em 1901, foi a descrição de uma espécie nova, o mosquito Anopheles lutzi por Oswaldo Cruz. “O primeiro trabalho de toda a história da Instituto foi em taxonomia de um mosquito. Essa é uma expertise que foi desenvolvida durante toda a história da instituição, por mais de 100 anos”, destacou.
As amostras da Coleção Peryassú foram descritas e catalogadas, apontando dados fundamentais como localização e data de coleta, além de sexo, atualização da nomenclatura, classificação e dados da biologia. “Analisamos meticulosamente o conteúdo de todos os tubos, investigando cada mínimo detalhe dos espécimes, com atenção aos rótulos que estavam escritos com a grafia em vigor do século passado”, relatou Teresa Fernandes, atual chefe do Laboratório. “Por ser uma coleção antiga, foi um trabalho bastante delicado e desafiador. Alguns espécimes não estavam completos, o que dificultou, em alguns momentos, a confirmação da identificação taxonômica feita por Peryassú”, acrescentou.

O inventário colocou em evidência a grande valia científica da Coleção Peryassú que contava com uma diversidade de espécies de mosquitos oriundas das mais distintas áreas geográficas do Brasil. Ao todo, eram 62 espécies, pertencentes a 18 gêneros e 24 subgêneros. “Essa Coleção tinha um valor singular. Com o crescimento imobiliário e a destruição da flora de algumas regiões, algumas espécies podem não existir mais nos locais em que foram coletadas originalmente. Por exemplo, havia na coleção mosquitos silvestres que se criam em brejos coletados em plena rua Farani, no bairro de Botafogo [RJ]. Assim, o inventário se tornou um documento histórico de uma fauna que um dia foi prevalente”, enfatizou Ricardo Lourenço.
Entre as espécies, estava o tipo do mosquito Anopheles oswaldoi, encontrado no Vale do Rio Doce (ES) e descrito por Peryassú em homenagem a Oswaldo Cruz, com quem trabalhou na campanha contra a febre amarela urbana no Rio de Janeiro na primeira década do século XX. “O tipo é o exemplar usado para descrever pela primeira vez uma espécie. Infelizmente, com o incêndio no Museu, houve o desaparecimento do espécime. Agora, terá de ser criado um neótipo, ou seja, algum especialista que for ao Vale do Rio Doce e encontrar um outro exemplar que se encaixe exatamente na descrição de Peryassú poderá registrar o achado”, explicou Lourenço.
A Coleção possuía algumas curiosidades científicas, que foram documentadas no levantamento. Em anotações nos rótulos dos fracos, Peryassú retratou alguns dos pensamentos da época. “A etiqueta de alguns Culex quinquefasciatus, o pernilongo comum, por exemplo, tinha uma observação que incluía a possível transmissão da dengue pelo mosquito. Hoje em dia sabemos que a dengue é transmitida pelo Aedes aegypti”, contou Teresa.
O projeto foi coordenado por Sonia Maria Lopes Fraga e Maria Conceição Messias, do Departamento de Entomologia do Museu Nacional.
A interrupção do trabalho de sete anos devido ao incêndio foi marcante para os pesquisadores. “Estávamos analisando a última gaveta e concluindo o inventário quando o Museu foi tomado pelo fogo”, lembrou Ricardo. “É difícil demais pensar que estávamos lá na sexta-feira [31 de agosto de 2018] à tarde e que dois dias depois esse local já não existia mais. É uma tristeza muito grande saber que não há a possibilidade de recuperar as peças que ali estavam”, lamentou Teresa.
Além da descoberta da riqueza científica e histórica da Coleção Peryassú, os pesquisadores ressaltam também as memórias afetivas do período em que participaram do inventário. “O contato com esses exemplares foi uma experiência emocionante em diversos níveis. Com os espécimes coletados na Quinta da Boa Vista, era como se tivéssemos viajado no tempo”, contou Teresa.
O pesquisador Ricardo Lourenço lembrou também da coincidência de catalogar um tubo com um mosquito que completava, no dia em que estava sendo inventariado, cem anos de coletado na região da Quinta. “Estávamos lá, no mesmo local em que ele foi coletado, cem anos depois. Ficamos contentes demais por pensar que Peryassú, que tivera a sua formação em taxonomia e biologia de mosquitos em Manguinhos, estivera ali contribuindo com a ciência brasileira”, disse o ex-chefe do Laboratório.
Com essa experiência, os pesquisadores reforçaram a importância da cooperação científica interinstitucional. “Uma das principais características da Fiocruz, desde a sua fundação, é a realização de parcerias com diferentes instituições. Isso é de grande valia por possibilitar a reunião de expertises e ampliar o leque de conhecimento. É um privilégio poder unir experiência, material e infraestrutura para o avanço do conhecimento”, salientou Tereza.
“É sempre uma honra trabalhar com o Museu Nacional. Obviamente, o que foi perdido é único e irrecuperável, porém, se a instituição decidir recomeçar a repor suas coleções, o Instituto Oswaldo Cruz, com a sua expertise, estará de braços abertos a colaborar”, garantiu Ricardo.
Permitida a reprodução sem fins lucrativos do texto desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)