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Inédito: cientistas reúnem maior acervo de dados sobre saúde silvestre do país

Relatório aponta mais de mil parasitos detectados em mamíferos, destaca lacuna em políticas públicas e faz recomendações para proteger saúde e biodiversidade 
Por Maíra Menezes17/12/2025 - Atualizado em 26/01/2026
A biodiversidade e os ecossistemas desempenham serviços ecossistêmicos que têm um papel crucial na regulação de processos ecológicos. Foto: Giles Laurent

Um esforço inédito para reunir e analisar dados sobre saúde de animais silvestres no Brasil mapeou 1.025 microrganismos detectados em 343 espécies de mamíferos no país. Dentre estes, 162 patógenos – incluindo vírus, bactérias, protozoários, vermes e fungos – têm potencial de transmissão para seres humanos. 

Trata-se do maior levantamento sobre saúde de animais silvestres no Brasil, fruto do projeto de pesquisa Redes Socioecológicas, coordenado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no âmbito do programa Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose). 

As informações estão publicadas no relatório “Panorama da Saúde Silvestre: uma síntese de agentes zoonóticos em mamíferos silvestres no Brasil, com recomendações para tomadores de decisão no contexto da Uma Só Saúde”, disponível no repositório Arca, da Fiocruz. 

Voltado para gestores, tomadores de decisão e a sociedade em geral, o documento apresenta informações fundamentais para a proteção da saúde e da biodiversidade. 

O monitoramento da ocorrência de doenças nas populações silvestres pode fornecer alertas precoces de zoonoses. Foto: Neil Palmer/CIAT

Os dados reunidos pelo projeto Redes Socioecológicas contemplam informações sobre registro de microrganismos em mamíferos silvestres; ocorrência de doenças transmitidas de animais para seres humanos, chamadas de zoonoses; e características ambientais e socioeconômicas dos municípios brasileiros nos últimos 20 anos. 

Os autores do trabalho ressaltam a importância das informações para compreender a disseminação de doenças zoonóticas, como febre amarela, malária e raiva, e prevenir a emergência de novos agravos.   

“A pandemia de Covid-19, causada por um vírus originalmente detectado em morcegos, mostrou como processos ecológicos, mudanças ambientais e antrópicas podem favorecer a transmissão de patógenos que existem na natureza para os seres humanos. É fundamental conhecer os parasitos que circulam em animais silvestres, especialmente no Brasil, onde temos a maior diversidade de mamíferos do mundo e muitas transformações ambientais”, afirma Paulo D'Andréa, chefe substituto do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios do IOC e um dos coordenadores do projeto Redes Socioecológicas. 

“Atividades humanas como desmatamento, mineração e avanço da ocupação sobre áreas de floresta causam perda de biodiversidade e podem impulsionam a disseminação de doenças infecciosas. Os dados permitem construir modelos para prever riscos e informar as políticas públicas”, ressalta Cecilília de Andreazzi, pesquisadora do mesmo Laboratório, que também é coordenadora da pesquisa.  

A sustentabilidade da cadeia produtiva de animais de criação está intimamente ligada à saúde e ao bem-estar dos animais. Foto: Alex S Araujo


Pilar negligenciado da saúde única 

Além de dados, o relatório ‘Panorama da Saúde Silvestre’ faz uma radiografia das políticas públicas no Brasil, apontando o negligenciamento desta temática, e apresenta recomendações prioritárias para enfrentar este desafio. 

A análise foi produzida a partir de oficinas promovidas pelo projeto Redes Socioecológicas com 33 pesquisadores, profissionais e gestores de órgãos públicos de meio ambiente, agropecuária e saúde e de organizações não governamentais. 

“A participação de cientistas e profissionais de diferentes áreas foi muito importante para identificar temas-chave para as políticas públicas e produzir um documento voltado para tomadores de decisão e a sociedade", observa Fabiana Lopes Rocha, coordenadora do Centro de Sobrevivência de Espécies Brasil (SSC) organização associada à União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) e integrante do projeto Redes Socioecológicas, responsável pela organização das oficinas. 

O relatório destaca que não existe legislação específica ou órgão com abrangência completa sobre a saúde de animais silvestres no Brasil. As políticas públicas atuais relacionadas aos animais focam em proteger os rebanhos de produção ou prevenir surtos entre seres humanos, ignorando o componente silvestre, a não ser em situações excepcionais nas quais existe ameaça de extinção. 


As mudanças globais causadas pelo desmatamento estão causando a perda da biodiversidade e impulsionando o surgimento e a disseminação 
de doenças infecciosas e parasitárias. Foto: Vinícius Mendonça - Ascom/Ibama

Considerada um avanço recente, a criação do ‘Comitê Interinstitucional de Uma só Saúde’ pode contribuir para mudar esse cenário. O objetivo do grupo, estabelecido no ano passado, com participação de 20 órgãos e coordenação do Ministério da Saúde, é elaborar uma política nacional no tema. 

Em suas recomendações, os autores do relatório destacam a necessidade de fortalecer a vigilância da saúde silvestre tendo em vista a saúde única (ou Uma só Saúde), que reconhece a conexão entre seres humanos, animais e ecossistemas. 

“A saúde dos animais silvestres tem sido o pilar negligenciado da saúde única. Precisamos implementar um sistema de vigilância, com compartilhamento de dados entre os ministérios da Saúde, Meio Ambiente e Agropecuária, e um mecanismo formalizado de governança das ações nesta área”, pontua Gisele Winck, pesquisadora do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios do IOC, que também atuou na coordenação do projeto Redes Socioecológicas.  

Além destas medidas, o relatório recomenda ações em diversas frentes, tais como: inserir a saúde silvestre em planos de conservação de espécies e processos de licenciamento ambiental; abordar o comércio e consumo de animais silvestres, por meio de regulamentação, fiscalização e ações educativas; e ampliar a participação da sociedade, especialmente dos povos indígenas e comunidades tradicionais, na formulação das estratégias para o setor. 


A Saúde Silvestre é uma ferramenta necessária e urgente de monitoramento e compreensão de agentes infecciosos. Foto: Renato Augusto Martins

O relatório conta com 24 autores de 13 instituições. A coordenação é de pesquisadores do IOC; Plataforma Internacional de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde (PICTIS), estabelecida em parceria entre Fiocruz e Universidade de Aveiro, em Portugal; Universidade Complutense de Madri, na Espanha, e SSC.   

Também assinam o texto especialistas da Fiocruz Amazônia, Fiocruz Rondônia,  Ministério da Saúde (MS), Secretaria de Estado da Saúde do Acre (Sesacre), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Centro Pan-Americano de Febre Aftosa e Saúde Pública Veterinária (Panaftosa), Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Universidade de Jerusalém, em Israel. 

Resultados em destaque 

As informações compiladas pelo projeto Redes Socioecológicas foram organizadas em dois conjuntos de dados, publicados online com acesso aberto.  

Um conjunto contempla o levantamento sobre parasitos detectados em mamíferos silvestres no Brasil, incluindo informações sobre distribuição espacial dos microrganismos e dos hospedeiros, interações entre eles, características dos animais e possibilidade transmissão dos parasitos para seres humanos [disponível aqui].  

O outro reúne informações sobre registros de doenças zoonóticas em seres humanos e características ambientais, climáticas e de perfil socioeconômico dos municípios brasileiros nos últimos 20 anos [disponível aqui]. 

Os dados do relatório permitem o desenvolvimento de estratégias eficazes para a prevenção de doenças, a proteção da saúde pública e a conservação dos ecossistemas naturais. Foto: Amazônia Real

As informações foram levantadas a partir de artigos científicos e consultas a acervos do Sistema Único de Saúde (SUS), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SIBBr), ICMBio, IUCN, MapBiomas, agência espacial americana, a Nasa, e outros. 

“Foi um trabalho extenso para compilar dados biológicos, ambientais e socioeconômicos, que estavam dispersos em publicações científicas e bases de dados no Brasil e no exterior. Com os conjuntos de dados abertos, é possível investigar padrões e gerar cenários em diferentes níveis geográficos, do federal ao municipal”, ressalta Gisele. 

O relatório ‘Panorama da Saúde Silvestre’ apresenta análises que podem orientar ações de controle de doenças e conservação ambiental.  

Entre os fatores impulsionadores de zoonoses, o estudo aponta que a perda de vegetação em locais remotos com alta riqueza de mamíferos está associada com aumento de doenças de origem animal. Em contrapartida, maior arborização urbana e cobertura vegetal diminuem esse risco. 

Associações parasito-hospedeiro: flavivirus (não-febre amarela) e orthobunyavirus

Área de distribuição das espécies de Sapajus spp. (polígonos) hospedeiras dos Flavivírus não-febre amarela (vírus de encefalite Saint-Louis e vírus Ilhéus), e Orthobunyavirus (vírus Caraparu, Guama, Oriboca, Marituba e Murutucu), agentes de doenças febris agudas. Os símbolos representam a ocorrência de Flavivirus (diamante) e Orthobunyavirus (triângulo) nos hospedeiros, e suas cores estão relacionadas às espécies de Sapajus spp.: S. apella (vermelho), S. cay (azul), S. flavius (laranja), S. libidinosus (verde), e S. nigritus (amarelo)

Considerando a infecção pelo Trypanosoma cruzi, parasito causador da doença de Chagas, a investigação revela características ambientais preditoras do risco de infecção. São elas: maior proporção de roedores no ambiente, redução da diversidade de espécies de animais silvestres e diminuição da cobertura vegetal natural da paisagem. 

“Esses resultados indicam que ações de conservação e restauração da biodiversidade podem contribuir para regular a prevalência do T. cruzi em hospedeiros silvestres, reduzindo o risco geral de transmissão da doença de Chagas”, comenta Ceciília. 

Outras análises incluem mapas que traçam a distribuição espacial de mamíferos silvestres detectados com microrganismos de importância para a saúde humana e animal, o que pode subsidiar a vigilância de patógenos como os vírus da encefalite de Saint-Louis e Ilhéus, causadores de doenças febris agudas, identificados em primatas do gênero Sapajus. 

Circulação do Trypanosoma cruzi

Distribuição geográfica no nível de município de circulação do parasito Trypanosoma cruzi em espécies da fauna silvestre (amarelo), na população humana (verde) e em ambos (laranja)

Mapas também revelam os municípios onde parasitos causadores de zoonoses foram detectados na população humana, em animais silvestres ou em ambos os hospedeiros, ampliando o conhecimento sobre circulação de agravos como doença de Chagas e leishmanioses. 

Considerando os registros de dez agravos (doença de Chagas, esquistossomose, febre amarela, febre maculosa, hantavirose, leishmaniose tegumentar e visceral, leptospirose, malária e raiva), os cientistas apontam o número de zoonoses identificado em cada município brasileiro, o que evidencia a ampla disseminação destas infecções. 

Ocorrência de zoonoses 

Número de zoonoses nos municípios brasileiros, a partir dos dados sobre doença de Chagas, esquistossomose, febre amarela, febre maculosa, hantavirose, leishmaniose tegumentar e visceral, leptospirose, malária e raiva

Embora seja o mais amplo conjunto de dados sobre saúde silvestre no Brasil, o levantamento revela lacunas de informação e desigualdades regionais.  

Os autores observam que mais de 40% das publicações sobre os parasitos detectados em mamíferos são referentes à região Sudeste, enquanto as regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul respondem por menos de 20% cada uma. 

“Esperamos que esse levantamento seja um ponto de partida para pesquisadores interessados em expandir essas informações. É muito importante ampliar as investigações nas diferentes regiões do país para compreender as interações entre parasitos e hospedeiros no nosso território”, salienta Paulo. 

Relatório aponta mais de mil parasitos detectados em mamíferos, destaca lacuna em políticas públicas e faz recomendações para proteger saúde e biodiversidade 
Por: 
maira
A biodiversidade e os ecossistemas desempenham serviços ecossistêmicos que têm um papel crucial na regulação de processos ecológicos. Foto: Giles Laurent

Um esforço inédito para reunir e analisar dados sobre saúde de animais silvestres no Brasil mapeou 1.025 microrganismos detectados em 343 espécies de mamíferos no país. Dentre estes, 162 patógenos – incluindo vírus, bactérias, protozoários, vermes e fungos – têm potencial de transmissão para seres humanos. 

Trata-se do maior levantamento sobre saúde de animais silvestres no Brasil, fruto do projeto de pesquisa Redes Socioecológicas, coordenado pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no âmbito do programa Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose). 

As informações estão publicadas no relatório “Panorama da Saúde Silvestre: uma síntese de agentes zoonóticos em mamíferos silvestres no Brasil, com recomendações para tomadores de decisão no contexto da Uma Só Saúde”, disponível no repositório Arca, da Fiocruz. 

Voltado para gestores, tomadores de decisão e a sociedade em geral, o documento apresenta informações fundamentais para a proteção da saúde e da biodiversidade. 

O monitoramento da ocorrência de doenças nas populações silvestres pode fornecer alertas precoces de zoonoses. Foto: Neil Palmer/CIAT

Os dados reunidos pelo projeto Redes Socioecológicas contemplam informações sobre registro de microrganismos em mamíferos silvestres; ocorrência de doenças transmitidas de animais para seres humanos, chamadas de zoonoses; e características ambientais e socioeconômicas dos municípios brasileiros nos últimos 20 anos. 

Os autores do trabalho ressaltam a importância das informações para compreender a disseminação de doenças zoonóticas, como febre amarela, malária e raiva, e prevenir a emergência de novos agravos.   

“A pandemia de Covid-19, causada por um vírus originalmente detectado em morcegos, mostrou como processos ecológicos, mudanças ambientais e antrópicas podem favorecer a transmissão de patógenos que existem na natureza para os seres humanos. É fundamental conhecer os parasitos que circulam em animais silvestres, especialmente no Brasil, onde temos a maior diversidade de mamíferos do mundo e muitas transformações ambientais”, afirma Paulo D'Andréa, chefe substituto do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios do IOC e um dos coordenadores do projeto Redes Socioecológicas. 

“Atividades humanas como desmatamento, mineração e avanço da ocupação sobre áreas de floresta causam perda de biodiversidade e podem impulsionam a disseminação de doenças infecciosas. Os dados permitem construir modelos para prever riscos e informar as políticas públicas”, ressalta Cecilília de Andreazzi, pesquisadora do mesmo Laboratório, que também é coordenadora da pesquisa.  

A sustentabilidade da cadeia produtiva de animais de criação está intimamente ligada à saúde e ao bem-estar dos animais. Foto: Alex S Araujo

Pilar negligenciado da saúde única 

Além de dados, o relatório ‘Panorama da Saúde Silvestre’ faz uma radiografia das políticas públicas no Brasil, apontando o negligenciamento desta temática, e apresenta recomendações prioritárias para enfrentar este desafio. 

A análise foi produzida a partir de oficinas promovidas pelo projeto Redes Socioecológicas com 33 pesquisadores, profissionais e gestores de órgãos públicos de meio ambiente, agropecuária e saúde e de organizações não governamentais. 

“A participação de cientistas e profissionais de diferentes áreas foi muito importante para identificar temas-chave para as políticas públicas e produzir um documento voltado para tomadores de decisão e a sociedade", observa Fabiana Lopes Rocha, coordenadora do Centro de Sobrevivência de Espécies Brasil (SSC) organização associada à União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) e integrante do projeto Redes Socioecológicas, responsável pela organização das oficinas. 

O relatório destaca que não existe legislação específica ou órgão com abrangência completa sobre a saúde de animais silvestres no Brasil. As políticas públicas atuais relacionadas aos animais focam em proteger os rebanhos de produção ou prevenir surtos entre seres humanos, ignorando o componente silvestre, a não ser em situações excepcionais nas quais existe ameaça de extinção. 


As mudanças globais causadas pelo desmatamento estão causando a perda da biodiversidade e impulsionando o surgimento e a disseminação 
de doenças infecciosas e parasitárias. Foto: Vinícius Mendonça - Ascom/Ibama

Considerada um avanço recente, a criação do ‘Comitê Interinstitucional de Uma só Saúde’ pode contribuir para mudar esse cenário. O objetivo do grupo, estabelecido no ano passado, com participação de 20 órgãos e coordenação do Ministério da Saúde, é elaborar uma política nacional no tema. 

Em suas recomendações, os autores do relatório destacam a necessidade de fortalecer a vigilância da saúde silvestre tendo em vista a saúde única (ou Uma só Saúde), que reconhece a conexão entre seres humanos, animais e ecossistemas. 

“A saúde dos animais silvestres tem sido o pilar negligenciado da saúde única. Precisamos implementar um sistema de vigilância, com compartilhamento de dados entre os ministérios da Saúde, Meio Ambiente e Agropecuária, e um mecanismo formalizado de governança das ações nesta área”, pontua Gisele Winck, pesquisadora do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios do IOC, que também atuou na coordenação do projeto Redes Socioecológicas.  

Além destas medidas, o relatório recomenda ações em diversas frentes, tais como: inserir a saúde silvestre em planos de conservação de espécies e processos de licenciamento ambiental; abordar o comércio e consumo de animais silvestres, por meio de regulamentação, fiscalização e ações educativas; e ampliar a participação da sociedade, especialmente dos povos indígenas e comunidades tradicionais, na formulação das estratégias para o setor. 


A Saúde Silvestre é uma ferramenta necessária e urgente de monitoramento e compreensão de agentes infecciosos. Foto: Renato Augusto Martins

O relatório conta com 24 autores de 13 instituições. A coordenação é de pesquisadores do IOC; Plataforma Internacional de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde (PICTIS), estabelecida em parceria entre Fiocruz e Universidade de Aveiro, em Portugal; Universidade Complutense de Madri, na Espanha, e SSC.   

Também assinam o texto especialistas da Fiocruz Amazônia, Fiocruz Rondônia,  Ministério da Saúde (MS), Secretaria de Estado da Saúde do Acre (Sesacre), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Centro Pan-Americano de Febre Aftosa e Saúde Pública Veterinária (Panaftosa), Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Universidade de Jerusalém, em Israel. 

Resultados em destaque 

As informações compiladas pelo projeto Redes Socioecológicas foram organizadas em dois conjuntos de dados, publicados online com acesso aberto.  

Um conjunto contempla o levantamento sobre parasitos detectados em mamíferos silvestres no Brasil, incluindo informações sobre distribuição espacial dos microrganismos e dos hospedeiros, interações entre eles, características dos animais e possibilidade transmissão dos parasitos para seres humanos [disponível aqui].  

O outro reúne informações sobre registros de doenças zoonóticas em seres humanos e características ambientais, climáticas e de perfil socioeconômico dos municípios brasileiros nos últimos 20 anos [disponível aqui]. 

Os dados do relatório permitem o desenvolvimento de estratégias eficazes para a prevenção de doenças, a proteção da saúde pública e a conservação dos ecossistemas naturais. Foto: Amazônia Real

As informações foram levantadas a partir de artigos científicos e consultas a acervos do Sistema Único de Saúde (SUS), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SIBBr), ICMBio, IUCN, MapBiomas, agência espacial americana, a Nasa, e outros. 

“Foi um trabalho extenso para compilar dados biológicos, ambientais e socioeconômicos, que estavam dispersos em publicações científicas e bases de dados no Brasil e no exterior. Com os conjuntos de dados abertos, é possível investigar padrões e gerar cenários em diferentes níveis geográficos, do federal ao municipal”, ressalta Gisele. 

O relatório ‘Panorama da Saúde Silvestre’ apresenta análises que podem orientar ações de controle de doenças e conservação ambiental.  

Entre os fatores impulsionadores de zoonoses, o estudo aponta que a perda de vegetação em locais remotos com alta riqueza de mamíferos está associada com aumento de doenças de origem animal. Em contrapartida, maior arborização urbana e cobertura vegetal diminuem esse risco. 

Associações parasito-hospedeiro: flavivirus (não-febre amarela) e orthobunyavirus

Área de distribuição das espécies de Sapajus spp. (polígonos) hospedeiras dos Flavivírus não-febre amarela (vírus de encefalite Saint-Louis e vírus Ilhéus), e Orthobunyavirus (vírus Caraparu, Guama, Oriboca, Marituba e Murutucu), agentes de doenças febris agudas. Os símbolos representam a ocorrência de Flavivirus (diamante) e Orthobunyavirus (triângulo) nos hospedeiros, e suas cores estão relacionadas às espécies de Sapajus spp.: S. apella (vermelho), S. cay (azul), S. flavius (laranja), S. libidinosus (verde), e S. nigritus (amarelo)

Considerando a infecção pelo Trypanosoma cruzi, parasito causador da doença de Chagas, a investigação revela características ambientais preditoras do risco de infecção. São elas: maior proporção de roedores no ambiente, redução da diversidade de espécies de animais silvestres e diminuição da cobertura vegetal natural da paisagem. 

“Esses resultados indicam que ações de conservação e restauração da biodiversidade podem contribuir para regular a prevalência do T. cruzi em hospedeiros silvestres, reduzindo o risco geral de transmissão da doença de Chagas”, comenta Ceciília. 

Outras análises incluem mapas que traçam a distribuição espacial de mamíferos silvestres detectados com microrganismos de importância para a saúde humana e animal, o que pode subsidiar a vigilância de patógenos como os vírus da encefalite de Saint-Louis e Ilhéus, causadores de doenças febris agudas, identificados em primatas do gênero Sapajus. 

Circulação do Trypanosoma cruzi

Distribuição geográfica no nível de município de circulação do parasito Trypanosoma cruzi em espécies da fauna silvestre (amarelo), na população humana (verde) e em ambos (laranja)

Mapas também revelam os municípios onde parasitos causadores de zoonoses foram detectados na população humana, em animais silvestres ou em ambos os hospedeiros, ampliando o conhecimento sobre circulação de agravos como doença de Chagas e leishmanioses. 

Considerando os registros de dez agravos (doença de Chagas, esquistossomose, febre amarela, febre maculosa, hantavirose, leishmaniose tegumentar e visceral, leptospirose, malária e raiva), os cientistas apontam o número de zoonoses identificado em cada município brasileiro, o que evidencia a ampla disseminação destas infecções. 

Ocorrência de zoonoses 

Número de zoonoses nos municípios brasileiros, a partir dos dados sobre doença de Chagas, esquistossomose, febre amarela, febre maculosa, hantavirose, leishmaniose tegumentar e visceral, leptospirose, malária e raiva

Embora seja o mais amplo conjunto de dados sobre saúde silvestre no Brasil, o levantamento revela lacunas de informação e desigualdades regionais.  

Os autores observam que mais de 40% das publicações sobre os parasitos detectados em mamíferos são referentes à região Sudeste, enquanto as regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul respondem por menos de 20% cada uma. 

“Esperamos que esse levantamento seja um ponto de partida para pesquisadores interessados em expandir essas informações. É muito importante ampliar as investigações nas diferentes regiões do país para compreender as interações entre parasitos e hospedeiros no nosso território”, salienta Paulo. 

Edição: 
Vinicius Ferreira

Permitida a reprodução sem fins lucrativos do texto desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)