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Ecologia e saúde caminham juntas no Cerrado

No Programa de Conservação Mamíferos do Cerrado, IOC investiga o papel de canídeos e felinos silvestres na transmissão da doença de Chagas e das leishmanioses
Por Jornalismo IOC29/05/2013 - Atualizado em 17/12/2024

No Programa de Conservação Mamíferos do Cerrado, IOC investiga o papel de canídeos e felinos silvestres na transmissão da doença de Chagas e das leishmanioses

:: Veja a galeria de fotos ::

 

Uma das savanas mais ricas em biodiversidade do planeta, o Cerrado brasileiro constitui o segundo maior bioma da América do Sul e permanece como guardião de patrimônios naturais de relevância econômica e genética. Porém, ao mesmo tempo em que abriga riquezas naturais as nascentes das maiores bacias hidrográficas nacionais, 5% de todas as espécies do mundo e um terço das brasileiras este território é habitado por parasitos causadores de doenças tropicais e seus respectivos vetores.

 

Carolina Oliveira

Raposa-do-campo capturada durante a campanha: o canídeo é o menos estudado da América Latina e recebe atenção especial no Programa

 

Em regiões como Araguari, em Minas Gerais, e Cumari, em Goiás, que apresentam casos de leishmanioses e ciclo silvestre de transmissão do Trypanosoma cruzi, agente etiológico causador da doença de Chagas, poucos quilômetros separam raposas, cachorros-do-mato e jaguatiricas de homens, cães e gatos domésticos. Neste circuito, todos se tornam importantes elementos da cadeia de transmissão, sendo os animais possíveis reservatórios de parasitos. Esta arriscada coabitação é resultado de décadas de intensas intervenções humanas, envolvendo a agricultura, o desmatamento, a pecuária e a urbanização, que reduziram o Cerrado à metade de sua vegetação original e o fragmentaram em porções que, hoje, estão dispersas em oito estados brasileiros.

Realizado desde 2009 com a participação de diversas instituições dentre elas, o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), através do Laboratório de Biologia de Tripanossomatídeos o Programa de Conservação Mamíferos do Cerrado (PCMC) monitora a saúde, o comportamento, níveis de stress e aspectos genéticos dos animais vivendo em habitats antropizados, ou seja, transformados pela ação humana. A primeira atividade em campo no ano de 2013, o ‘Projeto Raposa-do-Campo’, teve início em abril e vem levantando informações a respeito deste e de outros canídeos da região. Pela primeira vez, pesquisadores do IOC participaram do processo de coleta do sangue, medula e fragmentos de pele dos animais capturados em armadilhas. Em busca de parasitos intestinais, protozoários do gênero Leishmania ou T. cruzi, os especialistas André Roque e Fabiana Lopes vêm se revezando em viagens ao município de Cumari.

 

 

Adriano Gambarini

Roque e Caio Motta, da Fundação Parque Zoológico de São Paulo (FPZSP), trabalham na estação laboratorial montada em campo: algumas amostras precisam ser processadas imediatamente após a coleta

 

Das campanhas e pesquisas de campo realizadas pelos pesquisadores do Laboratório nos últimos quatro anos, nasceu um artigo científico que compila informações sobre a infecção de carnívoros pelo T. cruzi em diversos biomas brasileiros, como o Pantanal e vegetações de transição entre a Mata Atlântica e o Cerrado. O estudo acaba de ser aceito pela revista Plos One e deverá ser publicado em breve.

O objetivo é entender o papel de cachorros-do-mato, lobos-guará e raposas-do-campo no ciclo de transmissão destes parasitos e fazer um levantamento sobre a saúde dos animais, contribuindo com o desenvolvimento de estratégias de conservação, explicou Fabiana, uma das responsáveis por criar o protocolo de coleta de amostras biológicas para análise. A atuação em campo é uma novidade: até pouco tempo, o IOC apenas recebia as amostras sorológicas para processamento.

De acordo com Roque, a equipe investiga, ainda, como verminoses podem modular as infecções. Sabemos que o mico-leão-dourado infectado por determinada carga de helmintos sofre modificações na saúde, que o tornam menos capaz de controlar infecções por T. cruzi, por exemplo. Ele não somente desenvolve a doença como também se torna mais infectivo para os vetores, uma vez que a presença de protozoários na circulação sanguínea aumenta, esclareceu. A chefe do Laboratório de Biologia de Tripanossomatídeos do IOC, Ana Maria Jansen, também participa da iniciativa e ressalta a importância do estabelecimento de uma interface entre pesquisadores da área de Ecologia e da Saúde. Quando você estuda biodiversidade, precisa incluir o estudo dos parasitas afinal, eles fazem parte dela e atuam como poderosos moduladores, destacou.

Parcerias para seguir em frente

A primeira análise do material coletado é realizada em uma estação laboratorial montada em meio à mata nativa, de forma colaborativa. Cada parceiro levou um equipamento, porque o processamento básico das amostras e a hemocultura devem ser realizados imediatamente. Depois, trazemos o material para o Laboratório, no Rio de Janeiro, onde o submetemos a uma série de análises ao longo de mais 60 dias, explicou Fabiana. De acordo com a especialista, a raposa-do-campo é um dos canídeos menos estudados da América Latina e este projeto configura o maior do gênero realizado até então.

 

Adriano Gambarino

Raposinha liberada da 'consulta': o fotógrafo da revista National Geographic, Adriano Gambarini, registrou o dia-a-dia da equipe de campo em seu blog. Confira.

 

Esta etapa do estudo termina em junho e, em setembro, daremos início ao ‘Projeto onça-parda’, o primeiro monitoramento deste felino a ser realizado com auxílio de aparelhos de GPS no Brasil. Cinco animais já estão com o rastreio, pontuou. A especialista ressalta que as expedições do PCMC ao Cerrado são realizadas com autorização do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA) e sob rígido controle de biossegurança.

Além de Fabiana, Roque e Ana Maria, estão envolvidas a pesquisadora Alena Iñiguez, do Laboratório de Biologia de Tripanossomatídeos e a mestranda Daniela Vallim, cujo tema da dissertação será desenvolvido com base no ‘Projeto Onça-parda’. O PCMC constitui um Grupo de Pesquisa junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), liderado pelos biólogos Frederico Gemesio Lemos (Universidade Federal de Goiás) e Fernanda Cavalcanti de Azevedo (Universidade de Viçosa). Dentre os parceiros estão a Fundação Parque Zoológico de São Paulo; Instituto Smithsonian, nos Estados Unidos; Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); Universidade Federal de Goiás (UFG); Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e Universidade de São Paulo (USP). O PCMC recebe, ainda, o apoio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros, vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (Cenap/ICMBio). Também oferecem suporte à iniciativa as entidades americanas Cleveland Metropark Zoo, o Idea Wild e o Neotropical Grassland.

 

Isadora Marinho

24/05/13
.

No Programa de Conservação Mamíferos do Cerrado, IOC investiga o papel de canídeos e felinos silvestres na transmissão da doença de Chagas e das leishmanioses
Por: 
jornalismo

No Programa de Conservação Mamíferos do Cerrado, IOC investiga o papel de canídeos e felinos silvestres na transmissão da doença de Chagas e das leishmanioses

:: Veja a galeria de fotos ::

 

Uma das savanas mais ricas em biodiversidade do planeta, o Cerrado brasileiro constitui o segundo maior bioma da América do Sul e permanece como guardião de patrimônios naturais de relevância econômica e genética. Porém, ao mesmo tempo em que abriga riquezas naturais as nascentes das maiores bacias hidrográficas nacionais, 5% de todas as espécies do mundo e um terço das brasileiras este território é habitado por parasitos causadores de doenças tropicais e seus respectivos vetores.

 

Carolina Oliveira

Raposa-do-campo capturada durante a campanha: o canídeo é o menos estudado da América Latina e recebe atenção especial no Programa

 

Em regiões como Araguari, em Minas Gerais, e Cumari, em Goiás, que apresentam casos de leishmanioses e ciclo silvestre de transmissão do Trypanosoma cruzi, agente etiológico causador da doença de Chagas, poucos quilômetros separam raposas, cachorros-do-mato e jaguatiricas de homens, cães e gatos domésticos. Neste circuito, todos se tornam importantes elementos da cadeia de transmissão, sendo os animais possíveis reservatórios de parasitos. Esta arriscada coabitação é resultado de décadas de intensas intervenções humanas, envolvendo a agricultura, o desmatamento, a pecuária e a urbanização, que reduziram o Cerrado à metade de sua vegetação original e o fragmentaram em porções que, hoje, estão dispersas em oito estados brasileiros.

Realizado desde 2009 com a participação de diversas instituições dentre elas, o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), através do Laboratório de Biologia de Tripanossomatídeos o Programa de Conservação Mamíferos do Cerrado (PCMC) monitora a saúde, o comportamento, níveis de stress e aspectos genéticos dos animais vivendo em habitats antropizados, ou seja, transformados pela ação humana. A primeira atividade em campo no ano de 2013, o ‘Projeto Raposa-do-Campo’, teve início em abril e vem levantando informações a respeito deste e de outros canídeos da região. Pela primeira vez, pesquisadores do IOC participaram do processo de coleta do sangue, medula e fragmentos de pele dos animais capturados em armadilhas. Em busca de parasitos intestinais, protozoários do gênero Leishmania ou T. cruzi, os especialistas André Roque e Fabiana Lopes vêm se revezando em viagens ao município de Cumari.

 

 

Adriano Gambarini

Roque e Caio Motta, da Fundação Parque Zoológico de São Paulo (FPZSP), trabalham na estação laboratorial montada em campo: algumas amostras precisam ser processadas imediatamente após a coleta

 

Das campanhas e pesquisas de campo realizadas pelos pesquisadores do Laboratório nos últimos quatro anos, nasceu um artigo científico que compila informações sobre a infecção de carnívoros pelo T. cruzi em diversos biomas brasileiros, como o Pantanal e vegetações de transição entre a Mata Atlântica e o Cerrado. O estudo acaba de ser aceito pela revista Plos One e deverá ser publicado em breve.

O objetivo é entender o papel de cachorros-do-mato, lobos-guará e raposas-do-campo no ciclo de transmissão destes parasitos e fazer um levantamento sobre a saúde dos animais, contribuindo com o desenvolvimento de estratégias de conservação, explicou Fabiana, uma das responsáveis por criar o protocolo de coleta de amostras biológicas para análise. A atuação em campo é uma novidade: até pouco tempo, o IOC apenas recebia as amostras sorológicas para processamento.

De acordo com Roque, a equipe investiga, ainda, como verminoses podem modular as infecções. Sabemos que o mico-leão-dourado infectado por determinada carga de helmintos sofre modificações na saúde, que o tornam menos capaz de controlar infecções por T. cruzi, por exemplo. Ele não somente desenvolve a doença como também se torna mais infectivo para os vetores, uma vez que a presença de protozoários na circulação sanguínea aumenta, esclareceu. A chefe do Laboratório de Biologia de Tripanossomatídeos do IOC, Ana Maria Jansen, também participa da iniciativa e ressalta a importância do estabelecimento de uma interface entre pesquisadores da área de Ecologia e da Saúde. Quando você estuda biodiversidade, precisa incluir o estudo dos parasitas afinal, eles fazem parte dela e atuam como poderosos moduladores, destacou.

Parcerias para seguir em frente

A primeira análise do material coletado é realizada em uma estação laboratorial montada em meio à mata nativa, de forma colaborativa. Cada parceiro levou um equipamento, porque o processamento básico das amostras e a hemocultura devem ser realizados imediatamente. Depois, trazemos o material para o Laboratório, no Rio de Janeiro, onde o submetemos a uma série de análises ao longo de mais 60 dias, explicou Fabiana. De acordo com a especialista, a raposa-do-campo é um dos canídeos menos estudados da América Latina e este projeto configura o maior do gênero realizado até então.

 

Adriano Gambarino

Raposinha liberada da 'consulta': o fotógrafo da revista National Geographic, Adriano Gambarini, registrou o dia-a-dia da equipe de campo em seu blog. Confira.

 

Esta etapa do estudo termina em junho e, em setembro, daremos início ao ‘Projeto onça-parda’, o primeiro monitoramento deste felino a ser realizado com auxílio de aparelhos de GPS no Brasil. Cinco animais já estão com o rastreio, pontuou. A especialista ressalta que as expedições do PCMC ao Cerrado são realizadas com autorização do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA) e sob rígido controle de biossegurança.

Além de Fabiana, Roque e Ana Maria, estão envolvidas a pesquisadora Alena Iñiguez, do Laboratório de Biologia de Tripanossomatídeos e a mestranda Daniela Vallim, cujo tema da dissertação será desenvolvido com base no ‘Projeto Onça-parda’. O PCMC constitui um Grupo de Pesquisa junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), liderado pelos biólogos Frederico Gemesio Lemos (Universidade Federal de Goiás) e Fernanda Cavalcanti de Azevedo (Universidade de Viçosa). Dentre os parceiros estão a Fundação Parque Zoológico de São Paulo; Instituto Smithsonian, nos Estados Unidos; Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); Universidade Federal de Goiás (UFG); Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e Universidade de São Paulo (USP). O PCMC recebe, ainda, o apoio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros, vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (Cenap/ICMBio). Também oferecem suporte à iniciativa as entidades americanas Cleveland Metropark Zoo, o Idea Wild e o Neotropical Grassland.

 

Isadora Marinho

24/05/13
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Permitida a reprodução sem fins lucrativos do texto desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)