Amplamente utilizados no tratamento de doenças como alguns tipos de câncer, como o de mama, gástrico e do osso, os anticorpos monoclonais – produzidos em laboratório mediante técnicas de biotecnologia – também têm alto potencial de aplicação contra o vÃrus Zika. A evidência foi demonstrada em uma pesquisa liderada por cientistas norte-americanos, em parceria com o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e com a Universidade de São Paulo (USP), publicada nesta quarta-feira, 04/10, na revista internacional ‘Science Translational MedicineÂ’. Apesar da técnica rebuscada de produção dos anticorpos monoclonais, a ideia é simples: introduzidos no organismo, eles foram capazes de combater o vÃrus Zika, com alta especificidade em relação a esse alvo. Os testes com macacos foram baseados no uso de anticorpos monoclonais extraÃdos do sangue humano, a partir de um paciente em fase aguda de infecção pelo vÃrus Zika. Ou seja: a pessoa estava produzindo anticorpos para combater o vÃrus e os cientistas precisavam identificar, em meio ao vasto arsenal de imunidade produzido pelo organismo do paciente, quais seriam eficazes contra o Zika. Chegou-se a um coquetel com três anticorpos monoclonais. Os testes em macacos mostraram que o coquetel foi capaz de bloquear com êxito a replicação do vÃrus Zika – as taxas chegaram a 100%.
Divulgação sob arte de Jefferson Miranda

Testes em laboratório demonstraram a capacidade de bloqueio do vÃrus Zika pelo coquetel de anticorpos monoclonais, de até 100%. Nas placas à esquerda foram adicionados soro de macaco, que não recebeu os anticorpos, e o vÃrus Zika. O patógeno se multiplicou, seguindo o curso natural da infecção. Nas placas à direita, nas quais havia soro de macaco com anticorpos, o vÃrus Zika não foi capaz de se replicar
Gutemberg Brito

David Watkins, da Universidade de Miami, e Myrna Bonaldo, do Laboratório de Biologia Molecular de FlavivÃrus do IOC, em discussão dos resultados: intercâmbio cientÃfico foi fundamental para o alcance da descoberta
Reportagem: Vinicius Ferreira Edição: Raquel Aguiar 04/10/2017
Pesquisadores identificaram anticorpos monoclonais que impediram, em até 100%, a replicação do vÃrus durante testes com macacos. Técnica tem sido adotada para tratamento de câncer e doenças autoimunes
Amplamente utilizados no tratamento de doenças como alguns tipos de câncer, como o de mama, gástrico e do osso, os anticorpos monoclonais – produzidos em laboratório mediante técnicas de biotecnologia – também têm alto potencial de aplicação contra o vÃrus Zika. A evidência foi demonstrada em uma pesquisa liderada por cientistas norte-americanos, em parceria com o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e com a Universidade de São Paulo (USP), publicada nesta quarta-feira, 04/10, na revista internacional ‘Science Translational MedicineÂ’. Apesar da técnica rebuscada de produção dos anticorpos monoclonais, a ideia é simples: introduzidos no organismo, eles foram capazes de combater o vÃrus Zika, com alta especificidade em relação a esse alvo.
Os testes com macacos foram baseados no uso de anticorpos monoclonais extraÃdos do sangue humano, a partir de um paciente em fase aguda de infecção pelo vÃrus Zika. Ou seja: a pessoa estava produzindo anticorpos para combater o vÃrus e os cientistas precisavam identificar, em meio ao vasto arsenal de imunidade produzido pelo organismo do paciente, quais seriam eficazes contra o Zika. Chegou-se a um coquetel com três anticorpos monoclonais. Os testes em macacos mostraram que o coquetel foi capaz de bloquear com êxito a replicação do vÃrus Zika – as taxas chegaram a 100%.
Divulgação sob arte de Jefferson Miranda

Testes em laboratório demonstraram a capacidade de bloqueio do vÃrus Zika pelo coquetel de anticorpos monoclonais, de até 100%. Nas placas à esquerda foram adicionados soro de macaco, que não recebeu os anticorpos, e o vÃrus Zika. O patógeno se multiplicou, seguindo o curso natural da infecção. Nas placas à direita, nas quais havia soro de macaco com anticorpos, o vÃrus Zika não foi capaz de se replicar
“O método é altamente promissor para a prevenção de malformações congênitas e efeitos adversos em olhos e membros, uma vez que o coquetel de anticorpos monoclonais poderia ser administrado em gestantes e prevenir a infecção do feto. A literatura cientÃfica tem apontado que estas proteÃnas são extremamente seguras”, enfatizou o lÃder do estudo, o imunologista David Watkins, da Universidade de Miami. “O trabalho apresenta um importante passo para o desenvolvimento de uma terapia de ação preventiva contra o Zika”, completou Myrna Bonaldo, chefe do Laboratório de Biologia Molecular de FlavivÃrus do IOC, também autora do estudo. Brasileiro, natural de Belo Horizonte, o cientista Diogo Magnani, que também atua na Universidade de Miami, é o primeiro autor do artigo.
A engenharia genética como aliada
Para identificar os anticorpos com maior potencial contra o Zika, foi necessário percorrer um longo caminho. O primeiro passo foi realizar a coleta de sangue de um indivÃduo na fase aguda da doença. Com ajuda da engenharia genética, células produtoras de anticorpos foram identificadas e delas foram extraÃdos, isolados e purificados 91 anticorpos. Após testes in vitro, em que os anticorpos monoclonais eram desafiados a neutralizar o vÃrus Zika, foram selecionados os três que apresentaram as mais altas taxas de neutralização do vÃrus: os anticorpos monoclonais chamados SMZAb1, SMZAb2 e SMZAb5.
Os três anticorpos monoclonais foram administrados em um grupo de quatro macacos Rhesus. No dia seguinte, os quatro primatas foram inoculados com o vÃrus Zika isolado em 2016, por Myrna e sua equipe, de uma paciente do Rio de Janeiro. “Para este estudo, utilizamos o vÃrus que estava circulando no continente e causando uma emergência sanitária internacional. Este fato dá mais precisão aos resultados”, explicou David. Para efeitos de comparação, outros quatro animais, em grupo controle, receberam a inoculação do vÃrus após a administração de um placebo, com outros anticorpos que não têm ação contra o Zika.
Resultados animadores
Para acompanhar o impacto do uso dos anticorpos durante os testes, foi necessário determinar os nÃveis de carga viral no organismo dos animais. Para isso, amostras de sangue dos primatas foram coletadas aos 2, 3, e, 7, 14 e 21 dias após a infecção e submetidas à técnica de RT-PCR em tempo real, capaz de detectar e quantificar o material genético do vÃrus presente nas amostras. Os resultados evidenciaram que os anticorpos monoclonais especÃficos para Zika foram capazes de evitar, em até 100%, a replicação do vÃrus nos quatro macacos que receberam o coquetel. “Enquanto isso, no grupo que recebeu o coquetel placebo, observamos que todos os animais apresentaram alta taxa de infecção por Zika. Ou seja: a infecção seguiu o curso que era esperado”, enfatizou David.
Gutemberg Brito

David Watkins, da Universidade de Miami, e Myrna Bonaldo, do Laboratório de Biologia Molecular de FlavivÃrus do IOC, em discussão dos resultados: intercâmbio cientÃfico foi fundamental para o alcance da descoberta
Os especialistas deram um passo além. Em vez de avaliar o êxito da terapia experimental procurando apenas pela presença do vÃrus, os cientistas também aplicaram testes para detectar a ocorrência de moléculas especÃficas de defesa do corpo, que são produzidas em contato com algum tipo de microrganismo invasor. Testes sorológicos, aplicados 14 e 21 dias após a infecção, não evidenciaram no grupo que recebeu os anticorpos contra o Zika nenhuma resposta especÃfica contra a proteÃna NS1, produzida em casos de infecção pelo vÃrus Zika. “Se a taxa de produção do antÃgeno o NS1 foi nula, é sinal de que o Zika não conseguiu se replicar no organismo e invadir as celular dos animais”, explicou Myrna. Do mesmo modo, os Ãndices de produção das moléculas IgM e IgG, que indicam se a pessoa já teve contato com o patógeno em algum momento da vida, beiravam a nulidade. “Este outro resultado evidencia que o Zika foi completamente neutralizado pelo coquetel de anticorpos monoclonais. No campo cientÃfico, denominamos isso de proteção esterilizante, isto é, quando a resposta imune bloqueia totalmente a infecção pelo patógeno”, completou o imunologista.
Testes adicionais demonstraram que os anticorpos monoclonais permaneceram ativos e em altas concentrações por quase seis meses no organismo dos primatas. “Se extrapolado para a realidade humana, este dado mostra que o coquetel poderia ser recomendado em casos de surtos da doença a gestantes, profissionais de saúde e demais indivÃduos que precisem estar ou ir até as áreas endêmicas. Com uma dose única, esses grupos estariam protegidos contra o Zika. Para as mulheres grávidas, a administração do coquetel teria um ganho extra, uma vez que poderiam seguir a gestação de modo tranquilo, sem a preocupação diária de que a criança pudesse ser infectada pelo Zika e ser acometida de disfunções neurológicas”, disse Watkins. “Estudos já descreveram que o vÃrus afeta negativamente 40% das gestantes”, alertou.
O cientista norte-americano estima que o coquetel estará pronto para ser comercializado em larga escala entre dois e três anos, antes mesmo que uma vacina contra o Zika esteja disponÃvel para utilização. Os próximos passos serão a administração do coquetel em primatas gestantes e, em fase seguinte, em humanos.
Já prevendo uma possÃvel ocorrência de reação adversa do sistema imunológico em caso de infecção por dengue, que é da famÃlia dos FlavivÃrus, assim como o Zika, os especialistas realizaram pequenas modificações na estrutura genética dos anticorpos monoclonais para tornar sua administração ainda mais segura. Desta forma, o coquetel também poderia ser utilizado por pessoas com histórico de infecção por dengue, incluindo gestantes. “Esta é uma preocupação partilhada pelos grupos que estão trabalhando no desenvolvimento de vacinas para dengue e Zika”, explicou David.
A descoberta, que está com pedido de patente depositado nos Estados Unidos, também contou com a colaboração de especialistas do Instituto de Pesquisa Scripps, da Universidade de Emory, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos e do Instituto Ragon.
Reportagem: Vinicius Ferreira
Edição: Raquel Aguiar
04/10/2017
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