Gutemberg Brito

"A ciência não avança sem o aprendizado e o aprendizado não se faz sem a memória", afirmou o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, sobre o investimento na preservação das Coleções Biológicas
Gutemberg Brito

'Preservo' alia a conservação e a modernização de Coleções Biológicas do Instituto
Gutemberg Brito

Além de ampliar a segurança das amostras, a manutenção, preservação e modernização dos acervos tende a facilitar a consulta dos exemplares
Rodrigo Méxas

A Coleção Entomológica será uma das beneficiadas pelo projeto
Nova parceria com BNDES garante financiamento para preservação, organização e modernização de nove Coleções Biológicas do IOC. Outros patrimônios culturais e científicos da Fiocruz também serão contemplados
Fruto de parceria entre o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), a Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), o projeto ‘Preservo: Complexo de Acervos da Fiocruz’, destinado à preservação, organização e modernização de parte do extenso patrimônio científico e cultural da Fundação, receberá, em breve, o aporte de R$ 2,4 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Esse valor representa parte dos R$ 5 milhões a serem liberados pelo órgão. O lançamento do projeto, realizado no dia 17/12, no Castelo Mourisco da Fiocruz, contou com a participação do presidente da Fundação, Paulo Gadelha; do presidente do BNDES, Luciano Coutinho; dos diretores de Unidades envolvidas, Wilson Savino (IOC), Paulo Elian (COC) e Umberto Trigueiros (ICICT); do coordenador geral do projeto, Marcos José Pinheiro; e do diretor Executivo da Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec/Fiocruz), Maurício Zuma.
Gutemberg Brito

"A ciência não avança sem o aprendizado e o aprendizado não se faz sem a memória", afirmou o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, sobre o investimento na preservação das Coleções Biológicas
Dentre o patrimônio Arquivístico, Museológico e Bibliográfico da Fiocruz contemplado, estão nove Coleções Biológicas do Instituto, de importância nacional e internacional. Os acervos incluem insetos, helmintos e peças histopatológicas relacionadas a casos de febre amarela. De acordo com a vice-diretora de Serviços de Referência e Coleções Biológicas do IOC, Eliane Veiga Costa, o investimento contribuirá para o contínuo trabalho de aperfeiçoamento na infraestrutura, organização e divulgação das milhões de amostras sob a guarda da Unidade. Seguindo uma tendência internacional, três novos e modernos equipamentos nos permitirão acelerar a digitalização dos nossos acervos. Esse será um benefício para toda a Fiocruz e para instituições de ensino e pesquisa do Brasil e do mundo, destacou Eliane.
A cerimônia marcou a assinatura do contrato entre as instituições. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, salientou a importância do investimento. Preservar a memória científica é uma das missões mais nobres do conhecimento. A ciência não avança sem o aprendizado e o aprendizado não se faz sem a memória. É um privilégio contribuir para o resgate de acervos que possuem grande riqueza científica, documental e biológica e que contribuem para a produção científica de alta qualidade, destacou. A iniciativa valoriza cientistas pioneiros que foram ao campo e tiveram o cuidado de coletar, organizar e preservar amostras que possuem grande valor científico e histórico. Preservar esses acervos hoje é um compromisso histórico e uma questão que faz parte do projeto de desenvolvimento institucional da Fiocruz, complementou Gadelha.
Gutemberg Brito

'Preservo' alia a conservação e a modernização de Coleções Biológicas do Instituto
O projeto inclui as Coleções: Entomológica, Helmintológica, de Simulídeos, de Triatomíneos, de Moluscos, de Ceratopogonidae, de Culicídeos, de Artrópodes Vetores Ápteros de Importância em Saúde das Comunidades, além da única coleção Histopatológica da Fundação, a de Febre Amarela. Todas receberão melhorias estruturais e terão seus acervos digitalizados e disponibilizados para consulta e estudo online. Ao mesmo tempo em que possuem um aspecto histórico que precisa ser preservado, essas Coleções contribuem para o desenvolvimento de diversos estudos científicos atualmente. Um projeto que alia a conservação e a inovação, por meio de modernos equipamentos de infraestrutura, tende a garantir saltos de qualidade, enfatizou o pesquisador Marcelo Pelajo, representante do IOC no projeto e curador da Coleção de Febre Amarela.
Para estudar e pesquisar
Além do forte valor histórico, as Coleções Biológicas permanecem ativas, disponíveis para consulta com finalidade de Ensino e Pesquisa. Em geral, os espaços prestam serviço de empréstimo de espécimes, recebem depósitos de diversas instituições de ensino e pesquisa do mundo, e prestam apoio por meio de consultoria, cursos e treinamentos.
Gutemberg Brito

Além de ampliar a segurança das amostras, a manutenção, preservação e modernização dos acervos tende a facilitar a consulta dos exemplares
Ampliando o acesso
A instalação de equipamentos de microscopia digital será uma das estratégias para ampliar o acesso ao conteúdo das Coleções. O projeto contempla um scanner capaz de produzir imagens de alta resolução de preparados histológicos lâminas de vidro que guardam fatias extremamente finas de tecidos, órgãos ou células, além de dois equipamentos capazes de criar imagens digitais tridimensionais de amostras de maior porte, como insetos e vermes. Inovadores, os equipamentos conseguem reproduzir exatamente a visão que o pesquisador tem ao analisar este material ao microscópio. Com isso, quando forem disponibilizadas online, cientistas e estudantes terão acesso a milhares de exemplares em qualquer lugar do mundo. O ‘Preservo’ também vai garantir a produção de fotografias em 360° do acervo da Seção de Anatomia Patológica do Museu da Patologia do IOC, que conta com exemplares de ilustres patologistas, como Gaspar Vianna e Emmanuel Dias.
Mais espaço e segurança
Com o aporte recebido, serão instalados mobiliários deslizantes e climatizados que facilitam o manuseio e permitem a expansão dos acervos com novos depósitos. Além disso, dois novos freezers com capacidade para atingir até 86°C negativos atenderão os exemplares mais sensíveis. O tradicional Castelo Mourisco da Fiocruz e diversos pavilhões situados no campus da Fundação, em Manguinhos, no Rio de Janeiro, que abrigam diferentes tipos de acervos, receberão um novo sistema de segurança para prevenção e combate a incêndios.
A riqueza das Coleções
Os caminhos da história e da ciência se cruzam na trajetória das Coleções Biológicas do IOC. A mais antiga delas, a Coleção Entomológica, foi fundada ainda em 1901 pelo próprio Oswaldo Cruz, a partir da descrição do mosquito Anopheles lutzi, primeira espécie nova proposta no então Instituto Soroterápico Federal. A composição do acervo, um verdadeiro registro da biodiversidade, conta com materiais obtidos a partir das primeiras expedições científicas da Instituição, com colaborações de pesquisadores renomados, como Carlos Chagas e Arthur Neiva. Instalada no Castelo Mourisco, no campus da Fiocruz, no Rio de Janeiro, a Coleção atualmente abriga cerca de cinco milhões de exemplares de insetos, incluindo amostras da fauna brasileira e de outras regiões do mundo, representando quase todas as ordens conhecidas.
Rodrigo Méxas

A Coleção Entomológica será uma das beneficiadas pelo projeto
De acordo com a curadora da Coleção e chefe do Laboratório de Biodiversidade Entomológica do IOC, Jane Costa, um dos benefícios do projeto será o desenvolvimento de novas pesquisas e parcerias com outras instituições. A chegada de equipamentos capazes de gerar imagens de alta resolução vai permitir a digitalização dos bens mais preciosos das Coleções, os exemplares-tipo, que são os depósitos de espécies inéditas, considerados padrões para consultas taxonômicas e fonte de comparação para as demais espécies, explicou.
Também centenária, a Coleção Helmintológica, que reúne mais de 37 mil amostras provenientes dos cinco continentes, começou a ser formada a partir de coletas realizadas pelos célebres pesquisadores José Gomes de Faria e Lauro Pereira Travassos em trabalhos de campo realizados no final do século XIX e início do XX. Outros expoentes da ciência brasileira, como Oswaldo Cruz, Adolpho Lutz e Gaspar Viana, também depositaram ali exemplares utilizados em seus estudos, que, até os dias de hoje, permanecem disponíveis para consulta e pesquisa.
Tesouro em recuperação
Na década de 1970, durante o regime militar, além de dez renomados cientistas vinculados ao IOC terem seus direitos políticos cassados, no episódio conhecido como ‘Massacre de Manguinhos’, a estrutura de algumas Coleções, como a de Febre Amarela, foi afetada pela perda inestimável de parte de seu acervo. Apenas o material mantido em formol foi preservado. Como verdadeiros sobreviventes, ainda hoje, os acervos passam por transformações estruturais, visando suprir as deficiências herdadas desse acontecimento histórico.
Integração
A implementação do ‘Preservo’ é baseada na integração de esforços contínuos entre as Unidades da Fiocruz envolvidas na iniciativa. Os eixos Bibliográfico e Museológico do projeto contam com a coordenação do Icict e da COC, respectivamente. O primeiro contempla ações de restauração, digitalização e divulgação do patrimônio histórico bibliográfico das ciências da saúde, incluindo a preservação do acervo de Obras Raras da Fundação. Já o segundo assegura intervenções quanto à proteção de peças e pessoas, no que diz respeito ao armazenamento correto, fluxo de conteúdos e segurança contra incêndio e intempéries. As Coleções Biológicas do IOC estão inseridas no eixo Arquivístico.
Lucas Rocha
18/12/2014
Permitida a reprodução sem fins lucrativos do texto desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)