Estudos realizados pelo Instituto Oswaldo Cruz em parceria com o Instituto de Bioengenharia de La Jolla, na Califórnia, buscam novas formas de combater a doença
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a malária mata mais de 600 mil pessoas por ano no mundo, a maioria crianças africanas, que desenvolvem complicações da infecção pelo Plasmodium falciparum, das espécies do parasito que causa a doença em humanos. Entre as formas mais graves da doença está a malária cerebral, que é foco de estudos realizados pelo pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Malária do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) Leonardo José de Moura Carvalho, com financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês). Gutemberg Brito Segundo Leonardo Carvalho, a descrição dos mecanismos da disfunção vascular em malária pode levar a alvos para futuras terapias
Desde 2009, Leonardo coordena um projeto de pesquisa desenvolvido em parceria entre o IOC/Fiocruz, o Instituto de Bioengenharia de La Jolla, na Califórnia, EUA, e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os estudos investigam as alterações vasculares, que têm papel central na malária cerebral, e conseguiram identificar pelo menos duas drogas promissoras para combater a doença em modelos animais.

De acordo com o pesquisador, evitar os danos causados pela infecção no cérebro é fundamental para aumentar a sobrevida dos pacientes. Segundo ele, a malária cerebral tem uma evolução rápida, e a maioria dos óbitos ocorre em menos de 24 horas. Com isso, muitas vezes, os medicamentos antimaláricos – incluindo as drogas mais eficientes para matar o parasito, como as artemisininas – não conseguem surtir efeito.
Estudos anteriores, realizados em modelos animais, identificaram que a doença provoca uma disfunção vascular no cérebro, que está ligada à queda dos níveis de óxido nítrico – substância que tem um papel central na regulação do tônus vascular. “A principal função desta molécula é dilatar as artérias, para aumentar o fluxo de sangue quando há aumento de demanda de nutrientes e oxigênio em alguma área do cérebro. Na malária cerebral, há uma queda dos níveis de óxido nítrico. Os vasos não apenas deixam de se dilatar, como ficam mais contraídos do que o normal. Isso causa um processo de isquemia, que pode acabar levando à morte”, explica Leonardo.
Após testar uma série de compostos que poderiam ser capazes de reverter este processo, os pesquisadores chegaram a um resultado importante em 2010: a administração de nimodipina juntamente com um medicamento antimalárico, dobrou a chance de sobrevivência dos camundongos com malária cerebral. O resultado, publicado no American Journal of Pathology, foi considerado um dos dez mais importantes da área de medicina em março daquele ano pelo ranking Faculty of 1000 Medicine, que recomenda artigos de destaque nas áreas de biologia e medicina. Segundo Leonardo, a nitroglicerina, droga que atualmente é usada para aumentar o fluxo sanguíneo no coração em pacientes com angina, também teve efeitos positivos.
As pesquisas também obtiveram avanço na descrição dos mecanismos por trás da redução do fluxo sanguíneo na malária cerebral. Utilizando uma técnica chamada de microscopia intravital, que permite observar diretamente o cérebro dos camundongos vivos, os pesquisadores conseguiram medir a redução no diâmetro dos vasos sanguíneos. Já no ano passado, o grupo publicou um estudo na revista PLoS Pathogens apontando que as enzimas responsáveis pela síntese de óxido nítrico no cérebro têm a função prejudicada na infecção.
O projeto apoiado pelo NIH termina em junho deste ano, mas Leonardo diz que as pesquisas devem continuar. A próxima etapa do trabalho pretende investigar se os fenômenos observados em modelos animais ocorrem da mesma forma nas pessoas com malária cerebral. “No momento, estamos trabalhando em uma nova metodologia para avaliar a função vascular cerebral em pacientes. Apesar de haver algumas diferenças entre a síndrome neurológica em camundongos e em seres humanos, a parte vascular parece ocorrer de forma muito semelhante. Se isso for confirmado, as intervenções que funcionam no modelo experimental têm boas chances de serem eficazes na malária cerebral humana”, afirma o pesquisador.
Maíra Menezes
23/05/2014
Autorizada a reprodução sem fins lucrativos desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz).
Estudos realizados pelo Instituto Oswaldo Cruz em parceria com o Instituto de Bioengenharia de La Jolla, na Califórnia, buscam novas formas de combater a doença
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a malária mata mais de 600 mil pessoas por ano no mundo, a maioria crianças africanas, que desenvolvem complicações da infecção pelo Plasmodium falciparum, das espécies do parasito que causa a doença em humanos. Entre as formas mais graves da doença está a malária cerebral, que é foco de estudos realizados pelo pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Malária do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) Leonardo José de Moura Carvalho, com financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês).
Desde 2009, Leonardo coordena um projeto de pesquisa desenvolvido em parceria entre o IOC/Fiocruz, o Instituto de Bioengenharia de La Jolla, na Califórnia, EUA, e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Os estudos investigam as alterações vasculares, que têm papel central na malária cerebral, e conseguiram identificar pelo menos duas drogas promissoras para combater a doença em modelos animais.
Gutemberg Brito

Segundo Leonardo Carvalho, a descrição dos mecanismos da disfunção vascular em malária pode levar a alvos para futuras terapias
De acordo com o pesquisador, evitar os danos causados pela infecção no cérebro é fundamental para aumentar a sobrevida dos pacientes. Segundo ele, a malária cerebral tem uma evolução rápida, e a maioria dos óbitos ocorre em menos de 24 horas. Com isso, muitas vezes, os medicamentos antimaláricos – incluindo as drogas mais eficientes para matar o parasito, como as artemisininas – não conseguem surtir efeito.
Estudos anteriores, realizados em modelos animais, identificaram que a doença provoca uma disfunção vascular no cérebro, que está ligada à queda dos níveis de óxido nítrico – substância que tem um papel central na regulação do tônus vascular. “A principal função desta molécula é dilatar as artérias, para aumentar o fluxo de sangue quando há aumento de demanda de nutrientes e oxigênio em alguma área do cérebro. Na malária cerebral, há uma queda dos níveis de óxido nítrico. Os vasos não apenas deixam de se dilatar, como ficam mais contraídos do que o normal. Isso causa um processo de isquemia, que pode acabar levando à morte”, explica Leonardo.
Após testar uma série de compostos que poderiam ser capazes de reverter este processo, os pesquisadores chegaram a um resultado importante em 2010: a administração de nimodipina juntamente com um medicamento antimalárico, dobrou a chance de sobrevivência dos camundongos com malária cerebral. O resultado, publicado no American Journal of Pathology, foi considerado um dos dez mais importantes da área de medicina em março daquele ano pelo ranking Faculty of 1000 Medicine, que recomenda artigos de destaque nas áreas de biologia e medicina. Segundo Leonardo, a nitroglicerina, droga que atualmente é usada para aumentar o fluxo sanguíneo no coração em pacientes com angina, também teve efeitos positivos.
As pesquisas também obtiveram avanço na descrição dos mecanismos por trás da redução do fluxo sanguíneo na malária cerebral. Utilizando uma técnica chamada de microscopia intravital, que permite observar diretamente o cérebro dos camundongos vivos, os pesquisadores conseguiram medir a redução no diâmetro dos vasos sanguíneos. Já no ano passado, o grupo publicou um estudo na revista PLoS Pathogens apontando que as enzimas responsáveis pela síntese de óxido nítrico no cérebro têm a função prejudicada na infecção.
O projeto apoiado pelo NIH termina em junho deste ano, mas Leonardo diz que as pesquisas devem continuar. A próxima etapa do trabalho pretende investigar se os fenômenos observados em modelos animais ocorrem da mesma forma nas pessoas com malária cerebral. “No momento, estamos trabalhando em uma nova metodologia para avaliar a função vascular cerebral em pacientes. Apesar de haver algumas diferenças entre a síndrome neurológica em camundongos e em seres humanos, a parte vascular parece ocorrer de forma muito semelhante. Se isso for confirmado, as intervenções que funcionam no modelo experimental têm boas chances de serem eficazes na malária cerebral humana”, afirma o pesquisador.
Maíra Menezes
23/05/2014
Autorizada a reprodução sem fins lucrativos desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz).
Permitida a reprodução sem fins lucrativos do texto desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)