Editores da revista ‘Memórias do Instituto Oswaldo CruzÂ’ discutem as redes de estÃmulos e de desincentivos que influenciam os pesquisadores brasileiros no momento de decidir onde divulgar os resultados de seus estudos
Editores da revista cientÃfica ‘Memórias do Instituto Oswaldo CruzÂ’ trazem à tona, em comentário publicado na edição mais recente do periódico, uma discussão antiga, mas que costuma ficar restrita aos bastidores da ciência: por que pesquisadores brasileiros não publicam seus resultados em revistas cientÃficas nacionais? Por que não há incentivo para uma reversão desse paradigma? Que medidas poderiam contribuir para uma mudança de cultura e, consequentemente, ampliar o prestÃgio dos periódicos nacionais? Editada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) desde 1909, a revista ocupa posição de destaque na América Latina e garante a dupla gratuidade para acesso e para publicação. Acompanhe o texto a seguir: Revistas cientÃficas brasileiras: expectativas, (des)incentivos e uma questão fundamentalEditores da revista ‘Memórias do Instituto Oswaldo CruzÂ’ discutem as redes de estÃmulos e de desincentivos que influenciam os pesquisadores brasileiros no momento de decidir onde divulgar os resultados de seus estudos
Editores da revista cientÃfica ‘Memórias do Instituto Oswaldo CruzÂ’ trazem à tona, em comentário publicado na edição mais recente do periódico, uma discussão antiga, mas que costuma ficar restrita aos bastidores da ciência: por que pesquisadores brasileiros não publicam seus resultados em revistas cientÃficas nacionais? Por que não há incentivo para uma reversão desse paradigma? Que medidas poderiam contribuir para uma mudança de cultura e, consequentemente, ampliar o prestÃgio dos periódicos nacionais? Editada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) desde 1909, a revista ocupa posição de destaque na América Latina e garante a dupla gratuidade para acesso e para publicação. Acompanhe o texto a seguir:
Revistas cientÃficas brasileiras: expectativas, (des)incentivos e uma questão fundamental
Adeilton Brandão, Elisa Cupolillo e Claude Pirmez, editores da revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz
No Brasil, existem nada menos que mil revistas dedicadas à divulgação dos resultados de pesquisas cientÃficas, recobrindo todas as áreas do conhecimento. Isso está relacionado a um processo mais amplo: ao longo do enorme crescimento que a ciência brasileira tem vivido a partir do final do século XX, os cientistas no Brasil foram integrados a um sistema de incentivos e de avaliação que pressiona pela publicação em revistas consideradas de maior visibilidade e influência – sem exceção, controladas por grandes editorias cientÃficas concentradas nos Estados Unidos e Europa. Assim, o crescimento da produção da ciência brasileira nos últimos 50 anos foi acompanhado pela simultânea perda de influência das revistas editadas no paÃs. Alguns pontos a serem considerados:
1) Por que tantas revistas são editadas no Brasil e, mesmo assim, o nosso ambiente cientÃfico institucional não oferece incentivos para que os pesquisadores destinem a elas os seus melhores trabalhos?
2) Considerando os critérios internacionais de editoração cientÃfica, as revistas cientÃficas editadas no paÃs podem ser consideradas bons veÃculos de disseminação de conhecimento?
3) Deveria ser estabelecido um conjunto de revistas cientÃficas brasileiras a serem apoiadas e classificadas como adequadas para a divulgação de pesquisas em escala internacional?
4) Qual influência órgãos como a CAPES e o CNPq deveriam assumir no processo de editoração cientÃfica no Brasil?
5) Qual deve ser o papel da Pós-graduação, das Universidades, das sociedades cientÃficas e das Academias no processo de editoração?
Uma resposta a estes pontos exige um rigoroso olhar sobre o universo editorial e cientÃfico brasileiros. O atual sistema nacional de ciência e tecnologia apresenta alguns obstáculos para que as revistas dedicadas aos temas das ciências naturais (biologia, fÃsica e quÃmica) recebam os manuscritos mais impactantes relacionados ao trabalho dos pesquisadores brasileiros. Em sÃntese, os incentivos oferecidos aos cientistas não favorecem as revistas editadas no paÃs, posicionando-as como última escolha para submissão dos melhores resultados de pesquisa. Estes estÃmulos se apoiam em dois fatores:
a) a ênfase exagerada no fator de impacto, resultando em Ãndices nos quais a maioria das revistas brasileiras ocupa as últimas posições;
b) a percepção de que a aprovação de manuscritos exclusivamente por editores estrangeiros representaria maior prestÃgio, facilitaria a aprovação de pedidos de financiamento e, no caso dos jovens pesquisadores, aceleraria a progressão na carreira.
O ambiente de publicação cientÃfica no Brasil necessita de um ciclo editorial virtuoso: uma revista publica trabalhos de alta qualidade e estimula outros pesquisadores a submeterem trabalhos com qualidade equivalente. Como resultado, esse ciclo conduz ao aumento do prestÃgio e da classificação da revista, que continua a receber novos manuscritos de valor singular. No entanto, em nosso paÃs vigora o ciclo vicioso: uma revista publica resultados de pesquisa com pouca novidade e não estimula a submissão de novos e bons trabalhos em suas edições. Com isso, o periódico continua a receber e publicar artigos sem muita novidade, o que resulta na diminuição de seu prestÃgio e classificação.
Romper este ciclo vicioso é o desafio principal das revistas brasileiras que atuam na área das ciências naturais. Se, a este desafio, somarmos as caracterÃsticas do atual sistema de avaliação da pós-graduação brasileira, a missão assume elevado grau de dificuldade – ainda mais quando consideramos as limitações orçamentárias e tecnológicas do segmento editorial cientÃfico nacional. Uma estratégia para este problema seria promover a cultura da inovação, simultaneamente à revisão do conceito de produção cientÃfica: deslocar-se do ‘ondeÂ’ o artigo foi publicado para ‘o queÂ’ foi publicado. Outra via a ser considerada seria a integração das revistas aos esforços de internacionalização da ciência no Brasil. Esta via, porém, traz mais um questionamento: o que significa internacionalização? Se perguntarmos diretamente à s pesquisadoras e aos pesquisadores, poderemos ouvir duas respostas:
1) contar com a colaboração de pesquisadores de outros paÃses e publicar exclusivamente em revistas editadas FORA do Brasil;
2) contando ou não com a colaboração de pesquisadores estrangeiros, publicar em revistas editadas NO Brasil que preencham os requisitos de veÃculos de disseminação cientÃfica em escala internacional.
Do ponto de vista dos editores, tornar-se internacional deve, obrigatoriamente, compreender os seguintes atributos: inglês como idioma, profissionalismo, editores em tempo integral, capacidade inovadora, competitividade, sustentabilidade, credibilidade, adesão às boas práticas de publicação, infraestrutura tecnológica apropriada, acesso aberto e transparência editorial.
Qualquer que seja a opção que melhor se alinhe à nossa cultura acadêmica e aos circuitos de regulação nacional, para abordar os desafios da editoração cientÃfica no Brasil, é preciso antes responder a algo muito mais fundamental: os pesquisadores e as agências de financiamento devem apoiar a editoração no Brasil de revistas cientÃficas com alcance e influência internacionais? Em outras palavras, desejamos ter editadas no Brasil revistas cujos artigos transfiram prestÃgio acadêmico aos seus autores?
Respostas que cabem aos nossos pesquisadores e formuladores da estratégia nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação.
Para conhecer a versão original do comentário, em inglês, clique aqui.
26/07/2017
Permitida a reprodução sem fins lucrativos do texto desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)