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Carência de saneamento e deficiência no tratamento de água são apontados como fatores que contribuem para a disseminação da giardÃase em Santa Isabel do Rio Negro
O tratamento coletivo contra verminoses intestinais implementado no Brasil é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A terapia é oferecida anualmente para crianças em idade escolar em áreas onde há carência de saneamento. O objetivo é combater as infecções causadas por vermes, como Ascaris lumbricoides – popularmente conhecido como lombriga – e ancilostomÃdeos. No entanto, uma vez que a giárdia é um protozoário, microrganismo com caracterÃsticas biológicas diferentes dos vermes, o albendazol, medicamento utilizado, não é capaz de combatê-la. “O albendazol é um remédio de baixo custo, doado por empresas farmacêuticas para o tratamento coletivo de verminoses. A terapia contra a giardÃase exige cinco dias de administração de um outro medicamento, o metronidazol, ou tratamentos de dose única com medicamentos de preço mais alto”, explica Beatriz Coronato Nunes, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical do IOC e primeira autora do artigo. Com a ausência de indicação de terapia coletiva, o tratamento da giardÃase depende do diagnóstico realizado por meio de exame parasitológico especÃfico, que detecta os cistos (ovos) do parasito nas amostras. De acordo com Filipe, o diagnóstico é ainda mais importante na medida em que a maioria dos pacientes infectados não desenvolve sintomas. “Nenhuma das 433 crianças e adolescentes incluÃdos no estudo apresentava diarreia e, mesmo assim, identificamos 73 casos de giardÃase. A implementação da terapia coletiva para verminoses nas áreas endêmicas tem prejudicado o diagnóstico laboratorial das parasitoses intestinais, pois o exame para a detecção da doença tem sido frequentemente deixado de lado”, alerta o pesquisador.
Foto: Arquivo Beatriz Coronato Nunes analisa lâmina em exame parasitológico: achado de cistos de giárdia em amostras de fezes confirma infecção, que costuma ser assintomática

Fonte: Coronato Nunes B, et al. Spatial and Molecular Epidemiology of Giardia intestinalis Deep in the Amazon, Brazil. Plos One 11(7): e0158805 / Arte: Jefferson Mendes
O perfil genético dos parasitos detectados nas amostras também aponta para o alto grau de disseminação da doença. Em um laboratório de campo montado na cidade, o DNA dos protozoários foi extraÃdo e analisado. Dois genótipos distintos de giárdia, chamados de A e B, estavam relacionados aos casos. As duas variedades são conhecidas por infectar seres humanos e algumas espécies de animais. “Se houvesse uma única fonte de infecção na cidade, como um reservatório de água contaminado, todas as crianças apresentariam parasitos com o mesmo perfil genético. Mas, na análise molecular, identificamos diversos subtipos de parasitos dos genótipos A e B, o que reforça a hipótese de que há múltiplas fontes de transmissão do agravo no municÃpio. Melhorias nas condições de saneamento e fornecimento de água são fundamentais para mudar esse cenário”, enfatiza Beatriz. Reportagem: MaÃra Menezes Edição: Cristiane Albuquerque e VinÃcius Ferreira 02/01/2017Em municÃpio do norte do Amazonas, 17% dos menores de 14 anos apresentam infecção intestinal por giárdia. Estudo reforça necessidade de polÃticas públicas contra a doença
Realizado na cidade de Santa Isabel do Rio Negro, no Amazonas, um estudo com 433 crianças e adolescentes menores de 14 anos identificou infecção intestinal pelo parasito Giardia intestinalis em 17% das amostras analisadas. O Ãndice foi ainda maior, chegando a 22%, na faixa etária entre dois e cinco anos. Conduzida por cientistas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e da Fundação Oswaldo Cruz no Piauà (Fiocruz-PiauÃ), a pesquisa ressalta a necessidade de ações para o enfrentamento da giardÃase, doença que pode causar desnutrição e comprometer o crescimento das crianças. “Este agravo não é contemplado pelas polÃticas públicas de tratamento coletivo contra verminoses intestinais. Embora seja muito frequente, a giardÃase está esquecida, e as consequências disso podem ser graves, uma vez que a infecção prejudica a absorção de nutrientes no intestino”, ressalta Filipe Carvalho Costa, pesquisador da Fiocruz-Piauà e coordenador do trabalho. O estudo foi publicado na revista cientÃfica ‘Plos OneÂ’ e contou com o apoio do programa Brasil sem Miséria.
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Carência de saneamento e deficiência no tratamento de água são apontados como fatores que contribuem para a disseminação da giardÃase em Santa Isabel do Rio Negro
O tratamento coletivo contra verminoses intestinais implementado no Brasil é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A terapia é oferecida anualmente para crianças em idade escolar em áreas onde há carência de saneamento. O objetivo é combater as infecções causadas por vermes, como Ascaris lumbricoides – popularmente conhecido como lombriga – e ancilostomÃdeos. No entanto, uma vez que a giárdia é um protozoário, microrganismo com caracterÃsticas biológicas diferentes dos vermes, o albendazol, medicamento utilizado, não é capaz de combatê-la. “O albendazol é um remédio de baixo custo, doado por empresas farmacêuticas para o tratamento coletivo de verminoses. A terapia contra a giardÃase exige cinco dias de administração de um outro medicamento, o metronidazol, ou tratamentos de dose única com medicamentos de preço mais alto”, explica Beatriz Coronato Nunes, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical do IOC e primeira autora do artigo.
Com a ausência de indicação de terapia coletiva, o tratamento da giardÃase depende do diagnóstico realizado por meio de exame parasitológico especÃfico, que detecta os cistos (ovos) do parasito nas amostras. De acordo com Filipe, o diagnóstico é ainda mais importante na medida em que a maioria dos pacientes infectados não desenvolve sintomas. “Nenhuma das 433 crianças e adolescentes incluÃdos no estudo apresentava diarreia e, mesmo assim, identificamos 73 casos de giardÃase. A implementação da terapia coletiva para verminoses nas áreas endêmicas tem prejudicado o diagnóstico laboratorial das parasitoses intestinais, pois o exame para a detecção da doença tem sido frequentemente deixado de lado”, alerta o pesquisador.
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Beatriz Coronato Nunes analisa lâmina em exame parasitológico: achado de cistos de giárdia em amostras de fezes confirma infecção, que costuma ser assintomática
Contaminação disseminada
No trabalho, os pesquisadores mapearam os casos de giardÃase em Santa Isabel do Rio Negro. Os dados mostram que a doença ocorre em todos os bairros da área urbana do municÃpio, com alguns locais de maior incidência, principalmente nas proximidades do Rio Negro. A infecção afeta da mesma forma as crianças de famÃlias com diferentes faixas de renda, tanto acima como abaixo da linha de pobreza. Para os pesquisadores, os dados refletem a carência de saneamento básico na cidade. Segundo Filipe, na área urbana do municÃpio, que reúne cerca de cinco mil pessoas, a maioria das casas não possui fossa séptica e os dejetos são jogados diretamente no rio. Dessa forma, os cistos de giárdia liberados nas fezes dos pacientes infectados podem contaminar a água e o solo, sendo ingeridos posteriormente por outros indivÃduos, que podem contrair a doença. “Embora a Amazônia contenha a maior bacia hidrográfica do mundo, em Santa Isabel, muitas casas não têm acesso à água potável. Durante o dia, os moradores recebem nas torneiras água extraÃda de poços e à noite, água retirada do Rio Negro e clorada, o que não é suficiente para eliminar os cistos de giárdia”, diz o pesquisador.

Fonte: Coronato Nunes B, et al. Spatial and Molecular Epidemiology of Giardia intestinalis Deep in the Amazon, Brazil. Plos One 11(7): e0158805 / Arte: Jefferson Mendes
O perfil genético dos parasitos detectados nas amostras também aponta para o alto grau de disseminação da doença. Em um laboratório de campo montado na cidade, o DNA dos protozoários foi extraÃdo e analisado. Dois genótipos distintos de giárdia, chamados de A e B, estavam relacionados aos casos. As duas variedades são conhecidas por infectar seres humanos e algumas espécies de animais. “Se houvesse uma única fonte de infecção na cidade, como um reservatório de água contaminado, todas as crianças apresentariam parasitos com o mesmo perfil genético. Mas, na análise molecular, identificamos diversos subtipos de parasitos dos genótipos A e B, o que reforça a hipótese de que há múltiplas fontes de transmissão do agravo no municÃpio. Melhorias nas condições de saneamento e fornecimento de água são fundamentais para mudar esse cenário”, enfatiza Beatriz.
Reportagem: MaÃra Menezes
Edição: Cristiane Albuquerque e VinÃcius Ferreira
02/01/2017
Permitida a reprodução sem fins lucrativos do texto desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)