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1950 a 1975: erradicação da varíola, 'massacre de Manguinhos' e criação da Fiocruz

Responsável pela produção da vacina da varíola, IOC teve cientistas cassados pela ditadura militar e iniciou nova fase institucional com a criação da Fiocruz
Por Maíra Menezes14/10/2025 - Atualizado em 03/11/2025

A bem-sucedida campanha de erradicação da varíola contou com a contribuição fundamental do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), principal responsável pela produção da vacina no Brasil. No entanto, o terceiro quarto de séculoda instituição também foi marcado pelo ataque da ditadura militar à ciência, com a cassação de dez pesquisadores. Uma nova fase institucional se iniciou com a criação da Fiocruz, que integrou órgãos da saúde pública. Saiba mais sobre estes marcos históricos na terceira reportagem da série especial Linha do tempo: IOC 125 anos, que aborda os anos de 1950 a 1975.  

 
Registros da campanha de vacinação que mobilizou o país: mulher sendo vacinada em São Luís, Maranhão, e multidão reunida para imunização em Itajaí, Santa Catarina, em 1970. Fotos: Acervo COC/Fiocruz. Arte: João Veras

A varíola foi a primeira doença erradicada no planeta e, até hoje, a única. No Brasil, o IOC foi o maior responsável pela produção da vacina contra o agravo. O imunizante era um produto antigo, fabricado no país desde os tempos do Instituto Vacínico, do barão de Pedro Affonso, primeiro diretor do IOC. Porém, a produção precisava ser modernizada para dar conta da campanha nacional de vacinação em massa.

Com novos equipamentos comprados por meio de convênio com a Opas e técnicas aprimoradas a partir de experiências de outros países e pesquisas locais, o IOC passou a contar com duas linhas de produção da vacina, utilizando vitelos e ovos. Testes de campo confirmaram que os produtos preparados pelo Instituto eram tão eficazes quanto os dos Estados Unidos. Em nove anos, de 1962 a 1971, o IOC produziu cerca de 200 milhões de doses da vacina. A varíola foi extinta no Brasil em 1971 e declarada globalmente erradicada em 1980. 

Notícias jornais sobre a cassação dos pesquisadores do IOC e a mobilização a favor dos cientistas, reunidas pelo pesquisador Herman Lent, autor do livro 'O massacre de Manguinhos'. Foto: Acervo COC/Fiocruz. Arte: João Veras

Em 1º de abril de 1970, com base no Ato Institucional nº 5 (AI-5), oito pesquisadores do IOC tiveram seus direitos políticos cassados pela Ditadura Militar. No dia 6 de abril, o decreto que determinou a aposentadoria dos cientistas incluiu mais dois nomes no grupo, elevando para dez o total de atingidos pelo ‘massacre de Manguinhos’.

Foram cassados: Augusto Perissé, Domingos Arthur Machado, Fernando Braga Ubatuba, Haity Moussatché, Herman Lent, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto, Moacyr Vaz de Andrade, Sebastião José de Oliveira e Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti. 

O IOC perdeu 14% do seu quadro de pesquisadores. Mais que isso, os cientistas afastados eram líderes de grupos de pesquisa, ultrapassando 20 ou 30 anos de atuação. A perseguição política extinguiu linhas de estudo, afetou a formação de estudantes e desmantelou coleções biológicas, mergulhando o IOC numa profunda crise institucional e financeira. O episódio ficou conhecido como 'massacre de Manguinhos', termo cunhado por Herman Lent no livro homônimo, lançado em 1978.

A cassação dos pesquisadores do IOC se deu num contexto de ataques da ditadura militar à ciência, que incluiu prisões, exílios e desestruturação de universidade e instituições científicas. A Comissão Nacional da Verdade estima entre 800 e mil o número de pesquisadores perseguidos pelo regime.

Também conhecido como Castelo da Fiocruz, o Pavilhão Mourisco tornou-se o símbolo da instituição. Foto: Peter Ilicciev/Fiocruz Imagens. Arte: João Veras

Em 22 de maio de 1970, a Fundação de Recursos Humanos para a Saúde foi transformada em Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz). A nova instituição reuniu diversos órgãos do Ministério da Saúde: o IOC, considerado como cellula mater da Fiocruz; o Serviço de Produtos Profiláticos e os Institutos Fernandes Figueira, Evandro Chagas, de Leprologia e Nacional de Endemias Rurais. Em 1974, a instituição passou a se chamar Fundação Oswaldo Cruz (mantendo o acrônimo Fiocruz).  

Inicialmente marcado pela carência de recursos, o cenário da instituição começou a mudar na segunda metade da década, quando a epidemia de meningite deixou clara a vulnerabilidade do país na saúde pública e foi iniciada uma nova política de ciência e tecnologia, que colocou a recuperação de Manguinhos como prioridade.

Os anos seguintes foram marcados pela retomada científica, a volta da democracia e a atuação central em novos desafios da saúde pública, como a chegada da dengue e do HIV ao Brasil. Confira na próxima reportagem da  da série especial ‘Linha do tempo: IOC 125 anos’.

:: Veja as principais referências bibliográficas consultadas para a produção das reportagens.

:: Confira outras matérias sobre os 125 anos do IOC na página especial do Jubileu Secular de Prata.

Responsável pela produção da vacina da varíola, IOC teve cientistas cassados pela ditadura militar e iniciou nova fase institucional com a criação da Fiocruz
Por: 
maira

A bem-sucedida campanha de erradicação da varíola contou com a contribuição fundamental do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), principal responsável pela produção da vacina no Brasil. No entanto, o terceiro quarto de séculoda instituição também foi marcado pelo ataque da ditadura militar à ciência, com a cassação de dez pesquisadores. Uma nova fase institucional se iniciou com a criação da Fiocruz, que integrou órgãos da saúde pública. Saiba mais sobre estes marcos históricos na terceira reportagem da série especial Linha do tempo: IOC 125 anos, que aborda os anos de 1950 a 1975.  

 
Registros da campanha de vacinação que mobilizou o país: mulher sendo vacinada em São Luís, Maranhão, e multidão reunida para imunização em Itajaí, Santa Catarina, em 1970. Fotos: Acervo COC/Fiocruz. Arte: João Veras

A varíola foi a primeira doença erradicada no planeta e, até hoje, a única. No Brasil, o IOC foi o maior responsável pela produção da vacina contra o agravo. O imunizante era um produto antigo, fabricado no país desde os tempos do Instituto Vacínico, do barão de Pedro Affonso, primeiro diretor do IOC. Porém, a produção precisava ser modernizada para dar conta da campanha nacional de vacinação em massa.

Com novos equipamentos comprados por meio de convênio com a Opas e técnicas aprimoradas a partir de experiências de outros países e pesquisas locais, o IOC passou a contar com duas linhas de produção da vacina, utilizando vitelos e ovos. Testes de campo confirmaram que os produtos preparados pelo Instituto eram tão eficazes quanto os dos Estados Unidos. Em nove anos, de 1962 a 1971, o IOC produziu cerca de 200 milhões de doses da vacina. A varíola foi extinta no Brasil em 1971 e declarada globalmente erradicada em 1980. 

Notícias jornais sobre a cassação dos pesquisadores do IOC e a mobilização a favor dos cientistas, reunidas pelo pesquisador Herman Lent, autor do livro 'O massacre de Manguinhos'. Foto: Acervo COC/Fiocruz. Arte: João Veras

Em 1º de abril de 1970, com base no Ato Institucional nº 5 (AI-5), oito pesquisadores do IOC tiveram seus direitos políticos cassados pela Ditadura Militar. No dia 6 de abril, o decreto que determinou a aposentadoria dos cientistas incluiu mais dois nomes no grupo, elevando para dez o total de atingidos pelo ‘massacre de Manguinhos’.

Foram cassados: Augusto Perissé, Domingos Arthur Machado, Fernando Braga Ubatuba, Haity Moussatché, Herman Lent, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto, Moacyr Vaz de Andrade, Sebastião José de Oliveira e Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti. 

O IOC perdeu 14% do seu quadro de pesquisadores. Mais que isso, os cientistas afastados eram líderes de grupos de pesquisa, ultrapassando 20 ou 30 anos de atuação. A perseguição política extinguiu linhas de estudo, afetou a formação de estudantes e desmantelou coleções biológicas, mergulhando o IOC numa profunda crise institucional e financeira. O episódio ficou conhecido como 'massacre de Manguinhos', termo cunhado por Herman Lent no livro homônimo, lançado em 1978.

A cassação dos pesquisadores do IOC se deu num contexto de ataques da ditadura militar à ciência, que incluiu prisões, exílios e desestruturação de universidade e instituições científicas. A Comissão Nacional da Verdade estima entre 800 e mil o número de pesquisadores perseguidos pelo regime.

Também conhecido como Castelo da Fiocruz, o Pavilhão Mourisco tornou-se o símbolo da instituição. Foto: Peter Ilicciev/Fiocruz Imagens. Arte: João Veras

Em 22 de maio de 1970, a Fundação de Recursos Humanos para a Saúde foi transformada em Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz). A nova instituição reuniu diversos órgãos do Ministério da Saúde: o IOC, considerado como cellula mater da Fiocruz; o Serviço de Produtos Profiláticos e os Institutos Fernandes Figueira, Evandro Chagas, de Leprologia e Nacional de Endemias Rurais. Em 1974, a instituição passou a se chamar Fundação Oswaldo Cruz (mantendo o acrônimo Fiocruz).  

Inicialmente marcado pela carência de recursos, o cenário da instituição começou a mudar na segunda metade da década, quando a epidemia de meningite deixou clara a vulnerabilidade do país na saúde pública e foi iniciada uma nova política de ciência e tecnologia, que colocou a recuperação de Manguinhos como prioridade.

Os anos seguintes foram marcados pela retomada científica, a volta da democracia e a atuação central em novos desafios da saúde pública, como a chegada da dengue e do HIV ao Brasil. Confira na próxima reportagem da  da série especial ‘Linha do tempo: IOC 125 anos’.

:: Veja as principais referências bibliográficas consultadas para a produção das reportagens.

:: Confira outras matérias sobre os 125 anos do IOC na página especial do Jubileu Secular de Prata.

Edição: 
Renata Silva da Fontoura
Vinicius Ferreira

Permitida a reprodução sem fins lucrativos do texto desde que citada a fonte (Comunicação / Instituto Oswaldo Cruz)